terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

MORTE DE POLICIAL CHAMA ATENÇÃO PARA RISCO DAS OPERAÇÕES NAS FAVELAS

Editorial O Globo

Ao discutir tema, Supremo precisa estar atento a quem está na linha de frente do combate ao crime

Não pode se tornar apenas mais uma estatística a morte do tenente da PM Marcos José Oliveira de Amorim, de 33 anos, em operação policial na Zona Norte do Rio na última sexta-feira. Ele foi o quinto PM morto na Região Metropolitana do Rio só neste ano, o segundo em combate a criminosos. No ano passado, ao menos dez policiais morreram em operações. Os números expõem a rotina de risco a que são submetidos diariamente.

A polícia fluminense costuma ser criticada — e não sem razão — pelos altos índices de mortes nas operações que realiza. Mas a letalidade policial tem caído no Rio — em 2024, 20% em relação a 2023, atingindo o menor número desde 2015. As restrições a operações nas favelas impostas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) contribuíram para isso. Ao mesmo tempo, poucos lembram que policiais também são vítimas da guerra contra o crime que fustiga a população. É fundamental que os ministros do STF levem tais riscos em conta no julgamento da ADPF das Favelas, previsto para amanhã.

O risco que os policiais correm é agravado por operações nem sempre bem planejadas ou executadas — quando não vazadas para os bandidos. Elas expõem a vida não só dos policiais na linha de frente, mas também a de inocentes nas comunidades dominadas por facções criminosas. “Nossa polícia ainda vai às favelas para matar e morrer. Deixa inocentes pelo caminho em troca de apreensão de uma ou outra arma. Isso não faz diferença para a economia das organizações criminosas”, escreveu em artigo no GLOBO o empresário Eduardo Eugenio Gouvêa Vieira, presidente do Conselho Superior da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan).

O despreparo e a falta de planejamento ficaram evidentes em operação de outubro passado no Complexo de Israel, na Zona Norte do Rio. Mais bem preparados que as forças de segurança, traficantes levaram a polícia a recuar depois de instalarem o caos na cidade. Três cidadãos morreram e três ficaram feridos em meio à chuva de balas. A própria PM reconheceu não dispor de informações sobre a situação que encontraria no local.

O combate ao crime organizado exige operações em territórios sequestrados por milícias e facções criminosas. Mas elas precisam ser resultado de investigações com uso de inteligência e tecnologia, mirando as fontes de recursos do crime organizado, de modo a asfixiá-lo financeiramente. A guerra diária que vitima policiais e cidadãos não tem surtido efeito na criminalidade.

A PM afirma ter comprado 1.342 capacetes e 20 mil coletes para proteger os policiais, além de ter encomendado novas viaturas semiblindadas. São medidas necessárias, mas insuficientes para evitar mortes de policiais em comunidades fortemente armadas. O combate às organizações criminosas demanda novas estratégias e não pode ficar restrito às sobrecarregadas polícias estaduais. Traficantes e milicianos não serão vencidos se não houver um trabalho conjunto consistente do governo federal com os estados, usando todas as forças disponíveis.

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