terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

TRUMP DÁ INÍCIO À GUERRA COMERCIAL COM NEGOCIAÇÕES

Editorial Valor Econômico

Livre de amarras e rodeado de adoradores, Trump no poder tende a semear o caos - e já começou sua obra

Para quem prometeu uma “revolução do bom senso”, os primeiros passos do governo de Donald Trump estão distantes da trilha da razão. O presidente dos Estados Unidos escolheu como primeiro alvo seus principais parceiros comerciais, com os quais tem um acordo comercial em vigor: fixou tarifas de importação de 25% para Canadá e México, e de 10% sobre a China, mantidas as tarifas já majoradas antes. Os motivos são mais políticos que econômicos - imigrantes e drogas demais - e em parte infundados. A entrada irregular de pessoas e fentanil pelo Canadá não é relevante. Trump disse que “em definitivo” vai taxar a União Europeia e em seguida adiou as tarifas que seriam aplicadas ao México a partir de hoje. Após negociação com o primeiro-ministro Justin Trudeau, deu o mesmo prazo ao Canadá. Bolsas, títulos e moedas tiveram altos e baixos com as mudanças de humor do presidente.

Não importam os motivos, é bom para a economia global que a guerra comercial generalizada que está no centro do programa de Trump seja adiada. No caso do México e Canadá, ele postergou por 30 dias as medidas depois de a presidente do México, Claudia Scheinbaum, e Trudeau prometerem enviar 10 mil soldados para as fronteiras com os EUA para conter o fluxo de fentanil. Isso não resolverá o problema da imigração ilegal e da ação dos cartéis das drogas em território americano, mas dá a Trump a satisfação midiática de que suas ameaças produzem resultado.

Os sinais enviados pelos primeiros shows de Trump, no entanto, são péssimos, mesmo previsíveis. Os EUA vão tornar mais caras 45% das importações de alimentos, provenientes do México e do Canadá, e cerca de 43% de todos os bens que o país compra, somando-se as mercadorias dos vizinhos e as da China. O acordo comercial, primeiro Nafta e depois USMCA, como era seu objetivo, promoveu uma especialização produtiva que trouxe alguns benefícios aos três países. As declarações de Trump de que os superávits comerciais de Canadá e México são “subsídios” que Washington lhes dá ultrapassam as fronteiras da ignorância. Suas provocações sucessivas de que o Canadá será o 51º Estado americano são repulsivas e estabelecem mais um marco deplorável na forma como Trump enxerga o mundo e o poder.

As ideias do presidente não têm pé nem cabeça. Taxação generalizada de produtos supõe que os EUA possam produzir ou serem autossuficientes em tudo, o que é tão absurdo quanto julgar que altas tarifas de importação tornarão o país “rico” ou que achar que déficits comerciais são formas de outros países extorquirem os americanos.

Avaliadas as consequências, especialistas veem o risco de a guerra comercial de Trump levar o México à recessão e possivelmente o Canadá - ambos têm exportações para os EUA equivalentes a 25% ou mais do PIB. Mas uma grande vítima dos delírios de Trump serão os EUA. Analistas estimam que o crescimento do PIB americano possa perder entre 0,5 ponto e 1 ponto em 2025 se ele cumprir já suas promessas, e a inflação, com a elevação dos preços dos produtos importados provocada pelas tarifas, subirá de 0,5 ponto a 0,75 ponto de onde está, em 2,5%. Com isso, o Fed interromperá os cortes de juros. Preços mais altos, desaceleração da economia e política monetária contracionista retrairão o emprego e a renda do consumidor, que tem sustentado a força da economia até agora.

O estilo “transacional” de Trump é o de negociar em posição de força com ameaças, falsidades e grosserias para obter o que quer, o que nem sempre é sequer claro. A truculência de Trump afasta aliados, ajuda a fortalecer China e Rússia, e une a maior parte dos países na desconfiança sobre a confiabilidade dos acordos feitos com ele. Sua política destrói a ordem internacional erigida pelos EUA, mas nada coloca em seu lugar.

As tarifas são ameaça à economia mundial, mas não o único malefício causado por Trump. Ele está erodindo rapidamente o sistema de pesos e contrapesos que garantiu a democracia americana por décadas, seja demitindo todos os advogados que trabalharam com Jack Smith no processo contra Trump da invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021, seja com seu governo emitindo comunicados em que incentiva funcionários públicos a deixarem seus empregos para trabalhar na iniciativa privada, sob o argumento de que lá serão mais produtivos.

O homem mais rico do mundo, Elon Musk, que tem contratos milionários com o Estado, ganhou acesso ao sistema de pagamentos do Tesouro, algo típico de república de bananas, e intimida abertamente quem se põe no seu caminho, inclusive deputados e senadores republicanos.

A carga destrutiva das políticas de Trump será incapaz de pôr a “América em primeiro lugar”, posição que está prestes a partilhar a contragosto em um mundo que tende à multipolaridade, e no qual a supremacia americana se torna cada vez mais coisa do passado. Mas livre de amarras e rodeado de adoradores, Trump no poder tende a semear o caos - e já começou sua obra.

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