Livre de amarras e rodeado de adoradores, Trump no poder
tende a semear o caos - e já começou sua obra
Para quem prometeu uma “revolução do bom senso”, os
primeiros passos do governo de Donald Trump estão distantes da trilha da razão.
O presidente dos Estados Unidos escolheu como primeiro alvo seus principais
parceiros comerciais, com os quais tem um acordo comercial em vigor: fixou
tarifas de importação de 25% para Canadá e México, e de 10% sobre a China,
mantidas as tarifas já majoradas antes. Os motivos são mais políticos que
econômicos - imigrantes e drogas demais - e em parte infundados. A entrada irregular
de pessoas e fentanil pelo Canadá não é relevante. Trump disse que “em
definitivo” vai taxar a União Europeia e em seguida adiou as tarifas que seriam
aplicadas ao México a partir de hoje. Após negociação com o primeiro-ministro
Justin Trudeau, deu o mesmo prazo ao Canadá. Bolsas, títulos e moedas tiveram
altos e baixos com as mudanças de humor do presidente.
Não importam os motivos, é bom para a economia global que a
guerra comercial generalizada que está no centro do programa de Trump seja
adiada. No caso do México e Canadá, ele postergou por 30 dias as medidas depois
de a presidente do México, Claudia Scheinbaum, e Trudeau prometerem enviar 10
mil soldados para as fronteiras com os EUA para conter o fluxo de fentanil.
Isso não resolverá o problema da imigração ilegal e da ação dos cartéis das
drogas em território americano, mas dá a Trump a satisfação midiática de que
suas ameaças produzem resultado.
Os sinais enviados pelos primeiros shows de Trump, no
entanto, são péssimos, mesmo previsíveis. Os EUA vão tornar mais caras 45% das
importações de alimentos, provenientes do México e do Canadá, e cerca de 43% de
todos os bens que o país compra, somando-se as mercadorias dos vizinhos e as da
China. O acordo comercial, primeiro Nafta e depois USMCA, como era seu
objetivo, promoveu uma especialização produtiva que trouxe alguns benefícios
aos três países. As declarações de Trump de que os superávits comerciais de
Canadá e México são “subsídios” que Washington lhes dá ultrapassam as
fronteiras da ignorância. Suas provocações sucessivas de que o Canadá será o
51º Estado americano são repulsivas e estabelecem mais um marco deplorável na
forma como Trump enxerga o mundo e o poder.
As ideias do presidente não têm pé nem cabeça. Taxação
generalizada de produtos supõe que os EUA possam produzir ou serem
autossuficientes em tudo, o que é tão absurdo quanto julgar que altas tarifas
de importação tornarão o país “rico” ou que achar que déficits comerciais são
formas de outros países extorquirem os americanos.
Avaliadas as consequências, especialistas veem o risco de a
guerra comercial de Trump levar o México à recessão e possivelmente o Canadá -
ambos têm exportações para os EUA equivalentes a 25% ou mais do PIB. Mas uma
grande vítima dos delírios de Trump serão os EUA. Analistas estimam que o
crescimento do PIB americano possa perder entre 0,5 ponto e 1 ponto em 2025 se
ele cumprir já suas promessas, e a inflação, com a elevação dos preços dos
produtos importados provocada pelas tarifas, subirá de 0,5 ponto a 0,75 ponto
de onde está, em 2,5%. Com isso, o Fed interromperá os cortes de juros. Preços
mais altos, desaceleração da economia e política monetária contracionista
retrairão o emprego e a renda do consumidor, que tem sustentado a força da
economia até agora.
O estilo “transacional” de Trump é o de negociar em posição
de força com ameaças, falsidades e grosserias para obter o que quer, o que nem
sempre é sequer claro. A truculência de Trump afasta aliados, ajuda a
fortalecer China e Rússia, e une a maior parte dos países na desconfiança sobre
a confiabilidade dos acordos feitos com ele. Sua política destrói a ordem
internacional erigida pelos EUA, mas nada coloca em seu lugar.
As tarifas são ameaça à economia mundial, mas não o único
malefício causado por Trump. Ele está erodindo rapidamente o sistema de pesos e
contrapesos que garantiu a democracia americana por décadas, seja demitindo
todos os advogados que trabalharam com Jack Smith no processo contra Trump da
invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021, seja com seu governo emitindo
comunicados em que incentiva funcionários públicos a deixarem seus empregos
para trabalhar na iniciativa privada, sob o argumento de que lá serão mais
produtivos.
O homem mais rico do mundo, Elon Musk, que tem contratos
milionários com o Estado, ganhou acesso ao sistema de pagamentos do Tesouro,
algo típico de república de bananas, e intimida abertamente quem se põe no seu
caminho, inclusive deputados e senadores republicanos.
A carga destrutiva das políticas de Trump será incapaz de
pôr a “América em primeiro lugar”, posição que está prestes a partilhar a
contragosto em um mundo que tende à multipolaridade, e no qual a supremacia
americana se torna cada vez mais coisa do passado. Mas livre de amarras e
rodeado de adoradores, Trump no poder tende a semear o caos - e já começou sua
obra.

Nenhum comentário:
Postar um comentário