A liberdade que o ex-presidente e os participantes do 8 de janeiro defendem é diferente daquela que o inconfidente mineiro historicamente representa: ela não valeria para quem não apoiasse o golpe
A analogia partiu do próprio bolsonarismo: em abril de 2022,
o ex-ministro da Cidadania João Roma disse que o então presidente Jair
Bolsonaro “salvou da forca o novo Tiradentes”. Roma referia-se à graça que
Bolsonaro havia acabado de conceder ao ex-deputado Daniel Silveira para
livrá-lo da cadeia por atentar contra a democracia e por ameaças aos ministros
do STF. O indulto foi anulado pelo mesmo Supremo. Silveira cumpre pena, meio
esquecido pelos colegas.
Há outros para ocupar o seu lugar. No imaginário
bolsonarista, o Brasil tem hoje muitos “novos Tiradentes”. Entre eles, centenas
de “patriotas” que enfrentam a Justiça por participar dos atos golpistas de 8
de janeiro de 2023. Não se trata apenas de questionar se as sentenças são muito
duras, mas de alegar inocência. Eles não teriam feito nada de errado, apenas se
manifestado por “liberdade”, palavra usada por Bolsonaro tanto para justificar
o seu perdão a Silveira dois anos atrás, quanto, atualmente, para defender a
anistia aos condenados do 8 de Janeiro.
O mito de Tiradentes como um mártir da
liberdade é uma fabricação do início da República, cem anos depois de sua
morte, com contornos religiosos. Esse apelo também perpassa a lógica do
sacrifício atribuído aos envolvidos no 8 de janeiro e, principalmente, ao
inspirador de todos eles, o mártir supremo Jair Bolsonaro, que sua esposa
Michelle disse ter sido enviado por Deus.
A liberdade que eles defendem, porém, é diferente daquela
que Tiradentes historicamente representa: ela não valeria para quem não
apoiasse o golpe, caso ele desse certo. É para isso que servem golpes, afinal.
No vale-tudo para pressionar a liderança da Câmara para votar a anistia em
regime de urgência, até o asilo concedido a uma ex-primeira-dama do Peru, na
semana passada, tem servido de argumento. O que se alega é que, se uma
condenada por corrupção em outro país pode receber a proteção territorial do
governo brasileiro para ficar sem punição, o mesmo devia valer para os
condenados de 8 de janeiro — afinal, é tudo uma decisão política. Balela. Asilo
é uma prerrogativa diplomática que não se equipara a um perdão ou a uma
absolvição. Em governos anteriores do PT, um ditador paraguaio elogiado por
Bolsonaro teve garantido o seu asilo por aqui até o fim da sua vida e um
senador de direita, perseguido pelo então presidente boliviano de esquerda,
encontrou guarida na nossa embaixada e depois no Brasil. Asilo não é anistia e
Bolsonaro não é Tiradentes. •

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