Audiência de JD Vance, na véspera da morte, escancara
disputa por rumos do catolicismo depois da morte do maior opositor do trumpismo
O papa Francisco recebeu o vice-presidente dos EUA, JD
Vance, em audiência de 15 minutos que precedeu seu deslocamento até o balcão da
Basílica de São Pedro para a saudação pascal. A audiência de Vance somou-se a
uma série de compromissos que, em retrospecto, pareceram uma despedida.
Francisco visitou uma prisão em Roma e ainda saudou, do papamóvel, a multidão
na praça, o que não fazia desde fevereiro, quando foi hospitalizado.
Na audiência, a última antes de sua morte, Vance recebeu do
papa ovos de Páscoa de uma marca italiana para os filhos, uma gravata e
rosários para toda a família. O encontro não estava confirmado quando Vance
chegou a Roma. Na véspera, o vice americano tinha estado com o secretário de
Estado do Vaticano, Pietro Parolin. Pelas notas oficiais de cada lado - “troca
de opiniões sobre países afetados pela guerra, tensões políticas e situações
humanitárias difíceis, como as de migrantes, refugiados e prisioneiros”
(Vaticano) e “partilha da fé religiosa, do catolicismo nos EUA, perseguição de
comunidades cristãs no mundo e compromisso do presidente Trump pela restauração
da paz” (Vance) - conclui-se que não convergiram.
No dia seguinte, veio o encontro entre o
primeiro na linha sucessória da Casa Branca e o chefe de Estado de mais longeva
e consistente contestação ao trumpismo. Ao lamentar sua morte, Vance anexou à
sua mensagem uma homilia de 27 de março de 2020.
Naquele dia em que a Itália era o epicentro da epidemia da
Covid-19, Francisco celebrou a missa numa praça Praça de São Pedro vazia e
chuvosa. Na ocasião, relembrou passagem da bíblia em que Jesus dormia numa
embarcação durante tempestade ante discípulos incrédulos. Ao acordar, indagou:
“Por que temeis, homens de pouca fé?”. Francisco valeu-se da imagem para dizer
que, com Deus a bordo, não haverá naufrágio.
A menção a esta homilia sugere a disposição americana em
disputar a influência sobre os rumos da Igreja Católica com a partida do papa.
Naquela pandemia, JD Vance havia acabado de se converter ao catolicismo,
religião cuja resistência conservadora a Francisco teve nos EUA um de seus
principais redutos e à qual está filiado um terço do governo Trump, entre os
quais o secretário de Estado Marco Rubio.
Vance ignora os embates que Francisco teve com o
negacionismo trumpista na pandemia e sugere que não se deve perder a fé num
momento em que a ordem mundial, sacudida pelos EUA, parece estar submergindo.
Em artigo de julho do ano passado para a “The New Yorker”, Paul Elie, ao
discorrer sobre a conversão de Vance ao catolicismo, sugere outra hipótese.
Cita a percepção de Mark Lilla, professor na Universidade de Columbia, sobre o
uso que os líderes da extrema-direita fazem da superioridade moral, hierarquia
e tradição da Igreja Católica como licença para contornar os constrangimentos
impostos pelas instituições democráticas à sua visão sobre a modernidade - do
aborto à pauta LGBT, passando pelos imigrantes.
Enquanto esteve no ringue, Francisco se insurgiu contra esta
instrumentalização. Antes de sua internação, o papa contestou, em carta aos
bispos americanos, o uso que Vance fez do conceito teológico da “ordo amoris”
(ordem do amor) para justificar a política migratória.
Ao receber Vance em sua despedida, a despeito dos embates
que com ele travou, Francisco manteve uma porta aberta com a banda da igreja
católica americana com quem ainda mantinha diálogo ante outra mais
radicalizada, dos “sedevacantistas”, que não reconhecem a autoridade papal
desde o Concílio Vaticano II, na década de 1960. Entre outras mudanças, aquele
concílio desobrigou missas em latim e abriu a Igreja para o diálogo com a
ciência e outras religiões.
Vance faz dobradinha com Brian Burch, o embaixador dos EUA
na Santa Sé. Com nove filhos, Burch é presidente do “Voto Católico”, ONG que
tem se insurgido contra os ataques às instituições pró-vida vitoriosas com a
decisão da Suprema Corte que reconheceu a supremacia dos Estados sobre o
aborto.
Vance e Burch são mais moderados que o ideólogo da
extrema-direita Steve Bannon ou cardeais como Raymond Burke, nomeado pelo papa
Bento 16. Em 2019, Burke publicou, junto com outros cardeais ultraconservadores
a “declaração de verdades” em que acusava Francisco de desorientar a igreja
sobre divórcio, contracepção, homossexualidade e gênero.
Nem a turma de Vance nem a de Burke superam a ala da igreja
americana alinhada ao papado de Francisco, como o cardeal de Chicago, Blase
Cupich, ou mesmo o camerlengo da Santa Sé, Kevin Farrell, que organizará o
funeral e o conclave para a escolha do próximo papa. Farrel é irlandês, mas
comandou as dioceses de Dallas e Washington por quase 20 anos até ser levado
pelo papa para o Vaticano.
Nenhum dos nomes listados à sucessão - Pietro Parolin, Luis
Antonio Tagle (Filipinas), Peter Turkson (Gana), Matteo Zuppi (presidente da
Conferência Episcopal) - parece despontar em condições de ganhar sem aliança. É
sobre essas alianças que a ala dos cardeais mais conservadores, que o
catolicismo de JD Vance busca unificar, atuará.
Com as nomeações que fez ao longo de seus 13 anos como papa,
concentradas na África, Ásia e Oceania, e a régua dos 80 anos para a
elegibilidade, Francisco acabou por concentrar 80% do próximo conclave, o que
alimenta a expectativa de que a revolução de Francisco se renovará.

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