Construir um mercado mais justo exige ação consciente, e
a mudança começa com sair da bolha
Brasiliense, Rodrigo chegou ao mercado de trabalho
acreditando na promessa da meritocracia. Fugiu dos pistolões da sua terra
natal, convencido de que, em São Paulo, bastaria esforço.
Com o tempo, percebeu a ironia. As empresas, muitas vezes,
preferem contratar por indicação. E não é por má-fé: funcionários indicados
costumam ficar mais tempo, custam menos no processo seletivo e, em média, são
mais produtivos.
Esse dilema – entre mérito e acesso – virou pergunta de
pesquisa. O resultado foi uma dissertação de mestrado premiada no Insper, com
base em dados coletados ao longo de oito meses em todo o País. O autor analisou
1.356 brasileiros, de 430 cidades, incluindo trabalhadores atendidos pelo Sine
e pelo Poupatempo em São Paulo.
A hipótese central era simples: será que a homofilia – a
tendência de nos conectarmos a quem se parece conosco – afeta as chances de
contratação por indicação? A resposta é sim. E o impacto é desigual.
Pessoas que não compartilham nenhuma
característica com quem as indicou (nem gênero, nem raça, nem escolaridade, nem
religião, nem bairro) têm 16% menos chances de serem contratadas. E o efeito é
mais severo exatamente para quem mais precisa do emprego: mulheres não brancas,
pessoas com baixa escolaridade e trabalhadores desempregados.
É difícil pensar que o “QI” – o famoso “quem indica” – será
abandonado, exatamente por ele ser o resultado de um processo de escolha
econômica considerada ótima. Mas o que é ótimo do ponto de vista individual
pode reforçar desigualdades quando olhado no agregado.
A dissertação propõe caminhos: mentorias que conectem
profissionais estabelecidos a grupos sub-representados, incentivos econômicos
para diversificar indicações, e melhorias na infraestrutura de dados – como
identificar, nos registros administrativos, quem foi contratado por indicação.
Vale o alerta final do trabalho. Nossas redes de contato
falam tanto sobre quem incluímos quanto sobre quem deixamos de lado.
Pergunte-se: quantas pessoas na sua rede são realmente diferentes de você? Se
você tivesse nascido em outra realidade, como gostaria que o mundo do trabalho
estivesse estruturado?
Construir um mercado mais justo exige ação consciente. A mudança começa com uma decisão individual: repensar o “quem indica”, sair da bolha, ampliar redes, estender a mão e abrir espaço para quem não teve a mesma oportunidade.
* Cessão nesta quinzena ao meu aluno Rodrigo Carvalho, consultor de gestão, que me ensinou sobre mérito – e a falta dele –, no mercado de trabalho.

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