Com as tarifas, PIB americano encolhe, Bolsas desabam,
empresas registram menos vendas e mais custos
Em meros cem dias de seu segundo mandato, Donald Trump semeou
o caos com barreiras comerciais e decisões erráticas. Não demorou a colher o
resultado. O Produto Interno Bruto (PIB) americano sofreu contração de 0,3% no
primeiro trimestre. A confiança dos consumidores atingiu em abril o menor nível
em cinco anos. A rede de lanchonetes McDonald’s sofreu a maior queda nas vendas
desde os piores tempos da Covid-19. A General Motors prevê redução nos lucros
de 2025 entre US$ 4 bilhões e US$ 5 bilhões em consequência das tarifas. Desde
a posse de Trump, mais de US$ 6,5 trilhões viraram pó nas Bolsas de Valores —
pior desempenho dos mercados para um início de mandato desde 1974, quando
Gerald Ford assumiu após a renúncia de Richard Nixon. Trump não tem ninguém
mais a culpar por tudo isso além de si mesmo.
Como se trata da maior economia mundial, as decisões da Casa
Branca reverberam mundo afora. O Banco Central do Japão reduziu sua previsão de
crescimento para 2025 a menos da metade — a expectativa de 1,1% deu lugar a
magro 0,5%. Nas próximas semanas, é provável que mais países façam o mesmo. Em
abril, o Fundo Monetário Internacional reduziu a estimativa para o PIB de todos
os integrantes do G7 (Alemanha, Canadá, Estados Unidos,
França, Itália, Japão e Reino Unido) e das principais economias emergentes:
África do Sul, Brasil, China e Índia.
Para que lado Trump irá agora? Só ele sabe
— se é que sabe. Alguns caminhos são menos ruins, mas nenhum devolverá o mundo
ao lugar onde estava. Há um mês, Trump promoveu o maior choque tarifário da
História americana. No anúncio, empunhava uma placa com os países atingidos e
percentuais associados. Não havia ordem alfabética, ordem crescente ou
decrescente, muito menos lógica. Até ilhas povoadas por pinguins foram
afetadas. Nenhum economista sério viu nexo na fórmula usada para definir as
tarifas. Uma semana depois, ele deu meia-volta e suspendeu por 90 dias as
alíquotas mais altas (manteve 10% para todos, com exceção da China). Nesta
semana, mais uma vez retrocedeu, relaxando tarifas do setor automotivo.
O mais provável é que Trump busque acelerar acordos com as
maiores economias, tentando vender a ideia de que tudo não passou de estratégia
de negociação. Na quinta-feira, a imprensa oficial chinesa começou a dar sinais
de estar aberta a conversas. O tom foi diferente do usado na semana passada,
quando o Ministério do Comércio exigiu corte considerável das tarifas antes de
abrir o diálogo. Se fechados, esses acordos seriam uma alternativa menos
traumática, mas de qualquer forma haverá dor, porque as alíquotas não voltarão
ao que eram — e ninguém mais terá confiança no que estiver decidido.
Diante da reação negativa, Trump elegeu Jerome Powell, presidente do banco central americano, o Fed, como bode expiatório. Com uma estratégia de morde e assopra, o acusa injustamente de ser culpado pela freada na economia, ao não reduzir os juros. Noutra tentativa de esconder os fatos, ligou para Jeff Bezos depois de a Amazon informar que apresentaria nas notas fiscais valores pagos em razão do aumento das tarifas. Com a pressão, Bezos recuou. Enquanto isso, os novos empregos prometidos na indústria — pretexto para o tarifaço — continuam nos sonhos. As únicas certezas são a freada na economia e a aceleração da inflação. E não só nos Estados Unidos.

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