É que a mentira atrai como uma espécie de heresia, uma
sutil desconfiança da realidade por adesão às aparências
Na doxa platônica (esfera das opiniões e experiências
pessoais), Fídias, o cretense, afirma que todos os cretenses são mentirosos. O
paradoxo é logicamente insolúvel, nunca poderemos saber se ele fala a verdade
ou mente. Agora, trocando Creta por Brasil, topamos com o mesmo impasse
angustiante: se a mentira alcança o status de princípio social, mergulhamos no
vazio de marcadores existenciais. Não mais um episódio pitoresco da doxa, nem
mesmo ficcional do tipo "Black Mirror". A distopia encontrou lugar entre
nós.
Ao primeiro olhar, plataformas eletrônicas.
Há algo, porém, mais fundo e antigo do que isso. As religiões sempre mentiram
para acomodar suas teologias à mente dos fiéis e à hegemonia de Estado. E
mentir é engraçado nos relatos do Barão de Münchhausen, aquele que teria saído de um pântano puxando
pelos próprios cabelos. Isso sempre teve alguma acolhida na sociabilidade
comunitária.
Da infância interiorana vem a lembrança de mentirosos
compulsivos, objetos de uma atenção entre resignada e divertida. Havia desde os
populares, que narravam embates com lobisomens, até o médico de família, capaz
de uma hora inteira sem respirar no fundo do mar, pesquisando corais. Hoje, os
ditos antipolíticos, tanto pobres de direita como empreendedores, fazem bolhas
nessa lógica do "me engana que eu gosto", a mesma das câmaras de eco
das redes. Bolsonaro pode sumir, mas o bolsonarismo cresce na razão direta da enganação.
É que a mentira atrai como uma espécie de heresia, uma sutil
desconfiança da realidade por adesão às aparências. Já a crença nos fatos
implica "credibilidade total do que se faz e do que se vê, em detrimento
do que se pode chamar de aparência, cujo jogo consiste na evidência pragmática
das coisas" (Jean Baudrillard, "América"). Só que o fato é
factício, isto é, não mente, mas simula. Os americanos acreditam no fato, não
na facticidade ou fabricação do simulacro, seu ponto forte civilizatório: a
espetacularização, o marketing permanente da vida.
Merece atenção a formalização jurídica do falseamento. No
interrogatório da intentona golpista do 8/1, o magistrado certificava os réus de seu
direito de mentir. E assim de cada ovo gorado da serpente saía um clone do
Barão de Münchhausen, negando as evidências na materialidade das provas.
Arquiteto do golpe, o ex-presidente negou ter visto o que de fato viu e falou.
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Por que ritualizar mentiras, quando a verdade parece exsudar
pelos poros? Para dramatizar a garantia da lei à liberdade daquilo que a teoria
da linguagem chama de "discurso performativo" (sem compromisso com
prova) em vez do "discurso constatativo", sujeito à prova da verdade.
Mas, reiterando que ninguém é obrigado a provar contra si mesmo, o ritual não
deixa de destilar uma oblíqua moral da pusilanimidade.
E assim, generalizada pelas big techs, a performance assume todo discurso como mentira
sistemática, travestida de "liberdade de expressão", para chegar às
redes. Os paradoxos então se multiplicam e, como no absurdo "golpe dentro
das quatro linhas", as redes revivem a Creta de Fídias. Trata-se da
pressão narcísica de corpos agitados, ávidos por falar qualquer coisa, não de
liberdade como ação pública. Uma catástrofe da expressão social.

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