Indo ao Supremo, governo pode até ganhar na Justiça, mas
perderá de novo na política
No cardápio de providências cogitadas para reagir à pesada
ofensiva do Congresso, o governo inscreve soluções gastas para dar
conta de um problema relativamente novo. Na mais contundente delas, recorre
ao Supremo
Tribunal Federal. Pode até ganhar na Justiça,
mas perderá de novo na política.
A escalada de derrotas só não é
inteiramente inédita na cena da política brasileira porque, em termos de erosão
do capital de influência no Parlamento, já vimos algo parecido nos estertores
dos governos Fernando Collor e Dilma
Rousseff.
Luiz Inácio Lula da Silva
(PT) ainda não
tinha convivido com um grau tão agressivo de confronto, embora adotasse o
método quando na oposição. Em seus dois períodos anteriores na Presidência
sofrera apenas um revés de monta ao não conseguir a reedição do imposto (olha
ele aí) do cheque, a CPMF.
Do restante dos obstáculos —sendo o mais grave o escândalo
do mensalão—
pôde se safar com habilidade e a ajuda de um centrão também enredado nas
denúncias, de uma oposição frágil e de um Legislativo referido só no
fisiologismo.
Aquele mundo não existe mais, mas o presidente ainda parece
viver nele. Outro dia mesmo, numa cerimônia oficial para defender o
ministro Fernando Haddad (PT), lançava ataques ao FMI, um inimigo do
passado.
Agora Lula vem de tentar reeditar o dístico "nós contra
eles", marco inaugural da divisão radicalizada do país. Antes punha de um
lado os apoiadores do governo e do outro os críticos. Na versão revisada, são
os ricos para lá e os pobres para cá. Aos nem tão pobres nem tão ricos, pelo
jeito reservam-se as batatas.
Pois é justamente esse meio de campo que o presidente
precisa atrair para, antes de pensar em ganhar a eleição, subir muitos degraus
na escala daquilo que os cidadãos consideram um bom governo.
Essa possibilidade ele interdita na opção preferencial por
um estrato da população, excluindo os demais que lhe garantiram em 2022 o poder
conquistado sob a promessa de amplitude e união.

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