Há países que caminham. Outros correm. O Brasil parece
arrastar consigo as correntes de sua própria história, como se cada passo fosse
vigiado por fantasmas antigos. Desde que Luiz Inácio Lula da Silva retornou ao
centro do poder, eleito não apenas pelas urnas mas pela esperança fatigada de
um povo exausto, o que se viu não foi a travessia serena de um novo tempo, mas
o cerco sutil e persistente de um país que, em seu íntimo, parece se recusar a
ser governado.
Lula não venceu um oponente. Tocou em feridas abertas.
Despertou memórias inconciliadas. Provocou, com sua vitória, não apenas a
derrota de um projeto anterior, mas o retorno do medo, o acirramento dos
ressentimentos e a reanimação de uma máquina de negação que opera em silêncio,
com precisão cirúrgica. A oposição não desapareceu com a derrota de Bolsonaro.
Antes, se alicerçou. Reorganizou-se com disciplina. Não apenas resiste, mas
disputa, com intensidade e inteligência, o campo simbólico e concreto da política
nacional. O bolsonarismo não é mero eco do passado. É estrutura viva, operante,
ardilosa. Tem narrativa, tem fé, tem povo. Tem um líder que, mesmo silenciado
por circunstâncias jurídicas, permanece como espelho e estandarte.
Mas seria injusto, e também simplista,
atribuir o cerco à oposição. O que mais ameaça o governo Lula é o edifício do
próprio Estado. Uma arquitetura institucional deformada pelo tempo e por
interesses que se sobrepõem ao bem comum. O Brasil tornou-se um labirinto onde
o presidencialismo é ilusão e o Parlamento, poder absoluto. Um parlamentarismo
informal governa por dentro, sorrateiro, agindo com legalidade mas sem
legitimidade, manobrando orçamentos, estrangulando reformas, ditando as regras
com mãos invisíveis e vontades locais.
Ali, naquele Congresso que deveria ser a casa do povo,
instalou-se uma lógica feudal. Cada deputado é senhor de seu território, e cada
voto, uma moeda. O orçamento virou espólio. A governabilidade, um leilão. O
pacto nacional se dilui em emendas secretas, barganhas opacas, promessas
efêmeras. A nação desaparece em meio a um emaranhado de interesses regionais,
acordos paroquiais, cruzadas religiosas e pactos corporativos. O Estado se
dissolve em feudos, e a política vira negócio. É a teocracia disfarçada de moralidade.
É o corporativismo travestido de convicção. É o particularismo como método de
dominação.
Neste cenário, Lula caminha sobre pedras e pontes quebradas.
Exige-se dele o impossível. Querem que governe como se tivesse as rédeas do
orçamento, como se não houvesse muralhas entre sua caneta e o destino do povo.
Querem que entregue milagres sem tocar nas feridas. Que mantenha a dignidade de
um estadista enquanto é cercado por interesses que transformam o Executivo em
vitrine e o Legislativo em cofre. A fome do povo continua. As urgências sociais
se acumulam. Mas quem controla os recursos, quem determina o tempo das
reformas, quem fixa os limites da ação, está aquém da luz, além do controle
direto. Governa quem distribui as emendas, não quem assume as responsabilidades
históricas.
O Brasil tornou-se, assim, uma democracia sitiada. As
instituições funcionam, mas não cooperam. O sistema se move, mas não avança. Há
eleições, mas falta projeto. Há alternância de poder, mas não há alternância de
lógica. O bolsonarismo, com sua astúcia e radicalidade, ocupa os vácuos.
Alimenta-se do desencanto. Atua nas frestas. Mobiliza afetos, organiza redes,
forja verdades paralelas. Sua força está na continuidade, na disciplina e na
capacidade de traduzir o medo em discurso, a frustração em arma. É um movimento
com povo, com gramática e com fúria. Mas também com método e elegância
estratégica. Não deve ser subestimado.
Enquanto isso, a conjuntura internacional também fere. O
mundo se ergue em conflitos, rivalidades e impasses. O multilateralismo
agoniza. A diplomacia cede espaço à força. O Brasil, ao se alinhar a uma
política externa altiva, ao insistir na cooperação Sul-Sul, ao retomar a utopia
de um mundo multipolar, torna-se incômodo. Passa a ser observado com
desconfiança. Em alguns casos, é alvo. A guerra é geopolítica, mas seus
reflexos se manifestam no campo da economia, nas decisões de investimento, nas
negociações diplomáticas, nas disputas comerciais.
Lula resiste. Não apenas com palavras, mas com paciência.
Sua jornada é a de um andarilho experiente que conhece o deserto, mas carrega
água para os outros. Não cede à tentação do autoritarismo. Não busca atalhos.
Não explode, ainda que tenha razões. Escolheu governar com responsabilidade,
quando poderia apenas sobreviver. E, nesse gesto, revela grandeza. Mas a
maratona é longa, e o cerco é metódico. O tempo urge, o povo cobra, e a
democracia, se não for cuidada, esgarça.
O desafio é profundo. Não basta eleger um presidente. É
preciso reconstruir a ideia de República. O que está em jogo não é apenas o
mandato de um líder, mas o futuro de um país. É preciso romper com o fatalismo
da ingovernabilidade. É preciso nomear com elegância os obstáculos e
enfrentá-los com coragem. A crítica mais aguda não deve mirar os adversários
que se apresentam com franqueza. Deve mirar os pactos espúrios, os bastidores
sem luz, os acordos de ocasião que sabotam o futuro com ares de normalidade.
Lula governa um país que ainda precisa decidir se deseja ser
governado. A tarefa é imensa. A travessia, dura. Mas há beleza na resistência.
Há sentido na persistência. E há esperança na firmeza de quem, mesmo cercado,
insiste em caminhar. Não em direção ao poder pelo poder, mas à política como
projeto de país. Não à captura do Estado, mas à sua devolução ao povo.
Por isso, é preciso continuar. Mesmo quando tudo parece
ruir. Mesmo quando a noite é espessa. Porque a maratona não é apenas esforço. É
também destino. E o Brasil, por mais contraditório que seja, ainda pulsa com a
possibilidade de se tornar nação. Não uma soma de interesses. Mas um corpo
coletivo, justo, plural e inteiro.
Essa é a aposta. Esse é o desafio. Essa é a poesia política
que Lula, cercado, tenta escrever a cada novo dia.
* Sociólogo, cientista político e professor da UFRJ

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