Filme de Petra Costa, 'Apocalipse nos Trópicos', não diz
se Brasil conseguirá manter separação entre política e religião
Assistia ao documentário "Apocalipse
nos Trópicos", de Petra
Costa, e uma pergunta inquietante me ocorreu. E se todos os evangélicos que
existem no Brasil —todos, os 50 milhões— se convertessem subitamente à Teologia da
Libertação?
Haveria um documentário sobre a influência excessiva que
eles poderiam exercer na política e no governo? Haveria, digamos, uma
preocupação democrática com a interferência da religião no Estado
laico? A pergunta não é apenas inquietante. É fundamental para avaliar seus
sólidos princípios seculares.
Existem várias formas de teocracia. Todas elas convergem no
mesmo ponto: as leis humanas são uma transcrição e aplicação de leis divinas
—ou da interpretação humana dessas leis.
Para quem preza o Estado democrático, laico e pluralista (é
o meu caso), a separação entre o Estado e a Igreja não admite exceções
ideológicas.
"Meu reino não é deste mundo", teria dito Jesus a
Pilatos em seu julgamento. A frase é crucial na história política do Ocidente,
estabelecendo uma divisão profunda entre o reino temporal e o reino espiritual.
Claro que nem sempre foi respeitada —nem por reis, nem por papas.
Mas a modernidade liberal, ao contrário do que pensam certos
reacionários, conseguiu retornar a essa formulação original, respeitando o
mandamento de Cristo.
Isso não significa que a democracia liberal não tenha
incorporado, ou "secularizado", princípios que eram, na origem,
cristãos. A dignidade da pessoa humana, a liberdade de consciência, a limitação
do poder humano, até a existência de certos direitos inalienáveis —tudo isso
não caiu do céu. Ou, melhor dizendo, caiu, mas de um céu diferente.
Mas o filme de Petra Costa trouxe outras perguntas. Por
exemplo, como foi que os evangélicos cresceram tanto no Brasil?
A melhor resposta pertence a Lula da Silva,
entrevistado no filme, que conta a piada do desempregado que bate à porta do
sindicato e da Igreja Católica em
busca de ajuda. Do primeiro, recebe promessas de revolução. Da segunda,
promessas de compensação no além.
Só as igrejas evangélicas lhe dão respostas aqui e agora: o
problema é o Diabo e
a solução é Jesus. E Lula conclui: o que levou o socialismo à derrota foi a
negação da religião. Não, senhor presidente —foi o socialismo mesmo.
Mas entendo Lula da Silva: o fracasso da política (e dos políticos) abriu
espaço para templos e pastores que preencheram esse vazio.
Só estranhei que Lula, certeiro no diagnóstico, não se tenha
incluído entre a elite política que fracassou. Os evangélicos também cresceram
—e muito— durante os seus governos.
Por último, o documentário provoca uma pergunta difícil: que
lugar para a religião em democracias liberais?
Radicais de ambos os lados respondem facilmente: papel
principal ou papel nenhum. Para uns, a religião deve comandar a vida pública;
para outros, precisa ser banida dela. São cabeças muito parecidas e, talvez por
isso, inimigas tão ferozes.
Para as cabeças restantes, a resposta já foi sugerida há
quase 200 anos quando Alexis
de Tocqueville viajou pelos Estados Unidos. Ele percebeu uma diferença
importante entre separar a religião do espaço público e separá-la do poder
político.
Quando falamos do espaço público, democracias livres e
pluralistas convivem tranquilamente com diferentes visões de mundo. Há espaço
para todos.
Mais do que isso, para Tocqueville, a religião podia ser uma
aliada da democracia —ao promover a autorregulação moral, a convivência
associativa e senso de bem comum. A religião ajudava a "levantar o
olhar" dos indivíduos para além de si mesmos.
Por outro lado, Tocqueville também sabia que, no exercício
do poder político, é perigoso permitir que existam intérpretes exclusivos da
verdade —ou da vontade divina, como acontecera em sua França natal.
Esse foi, aliás, um dos pecados do antigo
regime: a aliança entre o trono e o altar acabou aprisionando a fé nas
engrenagens do despotismo. A democracia só poderia se afirmar no velho
continente se esse monumental equívoco fosse corrigido —dando a Deus o que é de
Deus e a César o que é de César. Será que o Brasil vai evitar esse equívoco,
mantendo separados os dois reinos?
Ninguém tem essa resposta —e o documentário de Petra Costa,
apesar do tom esperançoso no fim, não inspira muito otimismo.
No fim das contas, a democracia será sempre aquilo que os
democratas fizerem dela. Mas seria uma tragédia que, em pleno século 21, o
Brasil resolvesse voltar para o 18.

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