A bomba tarifária dos Estados Unidos, com estímulo da
extrema direita, vai além da economia: é chantagem política contra a nossa
democracia
Tudo o que temos vivido nos últimos dias é tão absurdo que,
às vezes, parece irreal. O Brasil está sendo atacado pelos Estados Unidos com
a maior tarifa que aquele país impôs aos seus parceiros, exigindo em troca não
uma abertura da economia brasileira, mas a interrupção de uma ação penal contra
quem tentou um golpe de Estado no Brasil. O governo brasileiro com seu plano de
contingência quer mitigar os danos de setores e empresas, e é isso mesmo que
ele deve fazer. Mas a economia vai sentir o impacto, algumas empresas podem não
sobreviver, empregos serão perdidos. Segundo a CNI, as tarifas adicionais dos
EUA afetam 77,8% das exportações brasileiras ao país.
O país foi atingido por ação do grupo
político que perdeu a eleição. Eles comemoram e acham pouco. Eduardo
Bolsonaro, que se diz exilado, torce de lá contra a economia e o
país. A
jornalista Bela Megale perguntou a ele sobre o fato de o agronegócio, grupo que
apoiou o bolsonarismo, ter sido prejudicado e ele respondeu: “nenhum fazendeiro
me ligou”. Nos autos do processo contra quem tentou um golpe de Estado, há
um momento em que o colaborador
Mauro Cid diz que o general Braga Netto pegou dinheiro “com o pessoal do agro”,
que segundo Cid “tava sempre ali trazendo manifestante e tudo”. Tudo era
dinheiro para a manutenção dos acampamentos que pediam intervenção militar.
Eles fazem teatro, os bolsonaristas. Falam
de ditadura, deputados cobrem a boca com esparadrapo numa alusão à suposta
censura. Se tivessem vencido as eleições, ou a conspiração, teríamos
aí sim uma ditadura. A mesma da qual eles têm saudade. Deputados e senadores
ocuparam as mesas do Congresso exigindo que se paute o impeachment do ministro
Alexandre de Moraes. São os mesmos que comemoravam o arquivamento dos inúmeros
pedidos de impeachment apresentados contra Bolsonaro, por causa das milhares de
mortes da Covid e daquele gerenciamento criminoso da crise sanitária.
No cotidiano, os produtores vão encontrando meios e caminhos
de sobreviver. O diretor- geral da Casa Apis, Sitonho Dantas, uma das maiores
exportadoras de mel do Piauí, conta que, logo que o tarifaço foi anunciado, os
importadores norte-americanos travaram o envio de contêineres. Mas agora estão
normalizando. Na sexta-feira, saíram dois para os Estados Unidos. Os
importadores disseram que vão manter os contratos que foram firmados no final
do ano passado para entrega em 2025. Até agora, 60% já foram enviados, restando
40% a serem cumpridos. Mas o problema é o que acontecerá no ano que vem. São
cooperados, produtores da agricultura familiar de produção orgânica, que se
organizaram para encontrar um nicho de mercado. São cerca de 800 famílias
cooperadas do município de Picos, a 314 km de Teresina. É esse tipo de
construção laboriosa que está sendo bombardeada por estímulo da facção política
de extrema direita.
O
setor moveleiro do sul do país, que trabalha com pinus e eucalipto, já começou
a sentir os efeitos, mesmo antes de as tarifas de 50% entrarem em vigor, ontem. Só
com o anúncio do aumento das tarifas, parte da exportação foi suspensa,
contratos foram interrompidos, embarques cancelados. Fábricas colocaram
trabalhadores em férias coletivas. Segundo a Associação Brasileira da Indústria
de Mobiliário, nove mil empregos podem ser perdidos. Os afetados são
principalmente empresas de Santa Catarina, Rio Grande do
Sul, Paraná e São Paulo. Algumas
vendem 100% da sua produção para os Estados Unidos. O grande concorrente é a
China que atualmente paga uma tarifa menor do que a do Brasil.
São muitas histórias assim quando se vai olhar setor por
setor. Alguns têm mais capacidade de aguentar como os produtores de café,
porque o produto está em falta no mundo e é mais fácil sua recolocação. Em
outras áreas, o estrago é grande. Economistas que olham só o macro fazem contas
de pequena queda do PIB em
decorrência do tarifaço, mas o setor que pegou de frente a tarifa de 50% está
mergulhado hoje em incerteza.
É preciso nunca perder a noção do que realmente está
acontecendo. A história brasileira é pontuada de golpes e tentativas de golpe.
Esta é a primeira vez que o Brasil leva golpistas ao banco dos réus. Tudo corre
dentro do devido processo legal. A maior potência do mundo estimulada pelos
golpistas está disparando bombas de alto poder de destruição da nossa economia.
O que eles querem é que o Brasil entregue a democracia dolorosamente
conquistada. Nada do que está acontecendo é aceitável. E tudo vai muito além da
economia.

Nenhum comentário:
Postar um comentário