Valdemar Costa Neto quer filiar o governador de São Paulo
ao PL
“Tarcísio já me disse que se for candidato irá para o PL”. O
presidente do partido, Valdemar Costa Neto, se vira nos 30 para manter a
lealdade a Jair Bolsonaro sem perder o bonde da história. No evento desta
segunda, promovido pelo grupo Esfera em São Paulo, foi o símbolo da barata voa
do bolsonarismo. “Estaríamos mortos se [Donald] Trump não tivesse sido eleito.
E agora ele, Trump, é a única saída que temos”. Só quando foi indagado se a
ação do deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nos EUA tinha apoio do partido,
reconheceu que seu correligionário “faz as coisas por conta própria”.
Costa Neto está prestes a perder o pote de ouro que a
filiação do ex-presidente lhe deu em 2022, quando o PL elegeu a maior bancada
na Câmara dos Deputados e recebeu a maior fatia dos fundos partidário e
eleitoral. Falou da esperança numa candidatura Bolsonaro e depois nem ele mesmo
parecia acreditar no que acabara de dizer. Tinha diante de si um auditório que,
minutos antes, havia interrompido o discurso do governador Tarcísio de Freitas
três vezes com aplausos.
Espera ter um rumo mais definido depois da
visita que fará a Bolsonaro na quarta-feira. O único consolo para o desespero
do presidente do PL é a recuperação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas
pesquisas. As chances de Lula preservam, no principal polo antilulista, o
bolsonarismo, a expectativa de que é possível manter o capital político. Como
Eduardo está fora do jogo e a ex-primeira-dama, Michelle, segue por raia
própria, nunca absorvida pelo grupo, sobra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
A insistência com a qual a chapa Ricardo Nunes/Melo Araújo,
indicado por Bolsonaro, foi lembrada ontem mostra que o lobby por Flávio na
vice de Tarcísio é grande. No meio do painel do qual participou, ao lado de
Gilberto Kassab (PSD), Baleia Rossi (MDB) e Antonio Rueda (União), Valdemar
Costa Neto exibiu dado de uma pesquisa que acabara de receber mostrando que o
apoio de Bolsonaro valeria 30% dos votos: “Leva qualquer um para o segundo
turno”. A pressão deriva da percepção de que a chance de Lula, dada a profusão
de nomes de oposição, está em vencer a eleição no primeiro turno.
Rueda, que tem uma federação com o PP, cita o governador do
União, Ronaldo Caiado (GO), e a senadora Tereza Cristina (PP-MS), mas, em
virtude da obsessão de seu parceiro de federação pela vice, amplia o conceito.
Diz que a federação estará “na chapa majoritária”. É uma concessão ao senador
Ciro Nogueira. O presidente do PP mostrou-se embevecido com Tarcísio (“Toda vez
que estou ao seu lado me encho de coragem e esperança com o futuro do país”) na
mesma proporção com a qual voltou-se contra Lula -“ataca sistematicamente nosso
parceiro histórico”. Era de Trump que falava.
Dos presidentes de partidos presentes, Kassab e Baleia foram
aqueles mais reticentes a uma candidatura unida do bloco de centro-direita
desde o primeiro turno. Kassab se refugia na candidatura do governador do
Paraná, Ratinho Jr., enquanto acena para Tarcísio num segundo turno -
“provocaria reflexão no PSD”. De sua passagem pelo Palácio do Planalto, no
início do mês, deixou a convicção de que o PSD liberará os palanques estaduais.
Baleia Rossi lança mão do subterfúgio “Ponte para o Futuro II” para dizer que,
mais importante que um nome, é ter um “projeto para o Brasil”.
Por mais que cada presidente de partido tenha seus próprios
projetos, todos eles passam pela candidatura Tarcísio, que abriu o evento
abertamente abraçado a 2026. Não parece o candidato estreante de 2022, que
tropeçava em conceitos e figuras de linguagem. Esmerou-se em frases de efeito
(“a palavra conduz e o exemplo arrasta”) e incorporou o personagem: “Um governo
de direita entrega este resultado social porque tem criatividade, inteligência
e preparo técnico”.
Tarcísio sinaliza que quer driblar a cobrança por se afastar
do padrinho incorporando outros personagens ao seu discurso. Ontem falou de
quatro: Javier Milei, Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e Winston Churchill.
O presidente argentino entrou como exemplo de redução do tamanho do Estado. O
enxugamento de Tarcísio não vai rifar emendas parlamentares. O orçamento vai
crescer tanto que - foi o que disse - não vão ser R$ 3 bilhões ou R$ 4 bilhões
que vão fazer diferença.
Pela maneira como descreveu Vargas e seu sucessor, JK,
começa a construir o ideário de que ele, como sucessor de Lula, repetiria a
história. “Lá atrás a gente teve uma pessoa que governou o Brasil pelo maior
período de tempo que foi Getúlio Vargas. Teve um acervo de realizações e
retornou ao poder em 1950 num período tumultuado abreviado por uma tragédia.
Depois daquele líder popular, o Brasil ficou imerso numa confusão. Então vem
JK, um líder disruptivo. Ia fazer 50 anos em cinco, mas construiu Brasília em
três. A gente hoje precisa fazer 40 anos em quatro”.
Atravessou, então, o canal da Mancha. “Quando o Reino Unido
estava imerso na Segunda Guerra, Churchill fez a seguinte pergunta: ‘O que eles
pensam de nós?’. A pergunta que temos que fazer é: o que nós pensamos de nós
mesmos”. O governador não mencionou Bolsonaro nem o tarifaço. Tampouco deu a
referência do discurso ao qual se referia, mas aquele com o qual o
primeiro-ministro britânico fez história foi pronunciado em 13 de maio de 1940.
“Nada tenho a oferecer senão sangue, trabalho, suor e lágrimas”, disse Churchill
ao assumir o governo e a guerra contra Hitler. Foi com o apoio de trabalhistas
e liberais que enfrentou a pressão conservadora por um pacto com o fascismo.

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