Se tolerar a apologia de uma ação militar dos EUA contra
o Brasil feita pelo filho de Bolsonaro, a Câmara dará uma banana para o País e
se assumirá como valhacouto de canalhas
A cada dia em que preserva o mandato de Eduardo Bolsonaro
(PL-SP), um impatriota que se homizia nas prerrogativas de deputado licenciado,
a Câmara falha miseravelmente em cumprir sua missão de honrar a representação
popular, essência da democracia representativa. Sob risco de ser tida como
cúmplice das ações de lesa-pátria perpetradas por esse traidor do Brasil, a
Casa precisa, de uma vez por todas, livrar-se de um estorvo que trabalha dia e
noite para desmoralizá-la.
Por mais óbvia que seja, a pergunta se impõe: afinal, o que
falta para a cassação de Eduardo Bolsonaro? Sua mais recente infâmia, que
decerto não será a última, foi endossar uma ameaça feita poucos dias atrás pela
porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, de que os EUA, pasme o leitor,
poderiam enviar “caças F-35 e navios de guerra” ao Brasil em represália à
condenação de seu pai, Jair Bolsonaro, por tentativa de golpe de Estado, entre
outros crimes. Ora, se a apologia de uma intervenção militar estrangeira contra
o País não se enquadra como quebra do decoro parlamentar, o vale-tudo está
autorizado e a transformação da Câmara em um valhacouto de canalhas é mera
questão de tempo.
As ações de Eduardo Bolsonaro contra o Brasil nos EUA são
tão perniciosas que fazem até seu pai, um dos piores deputados que já passaram
pela Câmara desde 1824, parecer um bufão. Indagado sobre o risco de brasileiros
inocentes serem mortos nessa hipotética ação militar norte-americana para
evitar que seu pai vá para a cadeia, o ainda deputado reagiu com absoluto
descaso, afirmando que “pessoas inocentes já estão se ferindo” – em referência
aos golpistas condenados pelo ataque do 8 de Janeiro, entre eles seu pai.
Eduardo Bolsonaro não apenas relativiza o sofrimento real que uma guerra, ainda
que hipotética, imporia à população brasileira, como rebaixa a atividade
parlamentar a um exercício de má-fé baseado no egoísmo e no desprezo pela vida
humana.
Seu caso é o mais aviltante, mas não é exceção. Carla
Zambelli (PL-SP), outra criminosa condenada pelo Supremo Tribunal Federal
(STF), fugiu do País para escapar da pena e está presa na Itália, onde aguarda
o término do processo de extradição para o Brasil. É mais uma que permanece
deputada a despeito do extenso rol de atos que protagonizou contra a dignidade
parlamentar. Seu correligionário Alexandre Ramagem (PL-RJ), também um criminoso
condenado pelo STF, há de ter o mandato cassado em cumprimento do art. 55,
inciso VI, da Constituição assim que a sentença penal condenatória transitar em
julgado.
A mera possibilidade de deputados desse jaez seguirem
detentores de mandato parlamentar é um atentado contra a dignidade e a
credibilidade da Casa de Ulysses Guimarães, de resto já tão abaladas por outra
gama de malfeitos de seus membros. A higienização institucional, portanto, não
é apenas um dever político da Câmara, é uma necessidade democrática. Nesse
sentido, o paralelo histórico é incontornável. Em 1999, o então deputado Jair
Bolsonaro escapou da cassação depois de ter defendido o fuzilamento do então
presidente Fernando Henrique Cardoso e ter pregado, reiteradas vezes, o
fechamento do Congresso. A Câmara, à época, trilhou o caminho da indulgência. É
ocioso descrever as consequências da pusilanimidade.
A cassação de Eduardo Bolsonaro, portanto, impõe-se como uma
questão de honra institucional, apreço pela democracia representativa e
respeito pelo Regimento Interno e pela Constituição. Não deve ser objeto de
conchavos partidários entabulados nas sombras nem de cálculos eleitorais
oportunistas. A Câmara não pode se apequenar diante de comportamentos que
atentam contra valores republicanos dos mais comezinhos. A resposta às
ignomínias do sr. Eduardo Bolsonaro deve ser clara, pública e altiva: há
limites que não podem ser ultrapassados no exercício da representação
parlamentar – e a defesa de uma intervenção militar estrangeira é um desses
limites intransponíveis.
A sociedade não pode assistir passivamente a seus
representantes conspirarem contra o próprio país. Se a Câmara não agir agora, a
História cobrará, como já cobrou no passado, o preço dessa inaceitável omissão.

Nenhum comentário:
Postar um comentário