Grande jornalismo profissional aceitou que seu papel de
testemunha-chave da História fosse bloqueado
Existe uma resolução do Conselho de Segurança da ONU
aprovada dez anos atrás que obriga os Estados-membros à proteção de jornalistas
durante conflitos armados. Não só porque jornalistas integram a população civil
de países, como pela função social específica que desempenham no mundo.
Assinada por unanimidade em 27 de maio de 2015, a 2222 especifica que
“jornalistas, profissionais de mídia e pessoal associado” na cobertura de
guerras não podem ser considerados alvo militar. Outra resolução, bem mais recente
(2730, de 2024), aborda especificamente “os princípios da distinção,
proporcionalidade e precauções em conflitos armados”, de modo a proteger civis
e pessoal humanitário. Contudo, ao longo dos últimos dois anos, até o frágil
cessar-fogo instaurado em 10 de outubro, tudo isso e muito mais foi pulverizado
pela ação das Forças de Defesa de Israel (FDI) na Faixa de Gaza.
Até aí nada de muito novo, visto que
resoluções da ONU valem pouco dependendo da força política ou do apadrinhamento
do país infringente. Inesperado, mesmo para os tempos atuais de escassez moral
no mundo, foi a docilidade com que o chamado grande jornalismo profissional
aceitou que seu papel de testemunha-chave da História fosse bloqueado. Diana
Buttu, advogada palestino-canadense especializada em Direito Internacional,
resumiu assim o noticiário inicial do conflito na imprensa ocidental:
— O mundo nos informa que nada pode justificar o 7 de
Outubro (data em que grupos terroristas do Hamas irromperam no sul de Israel,
trucidaram 1.219 pessoas em poucas horas e fizeram 251 reféns), mas tudo o que
Israel fizer pode ser justificado pelo 7 de Outubro.
No início do feroz assalto das FDI, também pareceu
compreensível que, por razões militares, Israel vedasse o enclave a todo e
qualquer representante de mídia independente. Ninguém esperava poder voltar aos
tempos áureos do jornalismo de guerra dos anos 1960 e 1970, quando os Estados
Unidos, atolados no Vietnã, perderam o apoio da opinião pública graças à
independência dos jornais, ao arrojo dos enviados ao front e à liberdade que
tiveram para trabalhar arriscando a vida. Nas guerras seguintes, tanto contra o
Iraque quanto no Afeganistão, o Pentágono domesticou os grandes órgão de mídia
— transformou os enviados especiais em embedded journalists. Atrelados às
forças invasoras, grande parte da cobertura foi feita em movimentos cerceados,
e o envio de imagens ficou sob escrutínio. Mesmo assim, não foram poucos os
jornalistas internacionais que abriram mão da sedução de poder cobrir uma
guerra do interior de um tanque e se aventuraram a explorar o morticínio por
conta própria.
Em Gaza, nem isso. O bloqueio foi, é e continua a ser
irredutível e absoluto. Coube então ao jornalismo profissional e amador de Gaza
vestir coletes e capacetes e mostrar o que ninguém queria ver. De início
desacreditados pelas grandes mídias mundiais, ou suspeitos de ser meros
propagandistas do Hamas, toda uma geração de repórteres, cinegrafistas,
fotojornalistas, radialistas e blogueiros palestinos vivenciou e testemunhou a
história da guerra. Foi alto o custo humano desse trabalho insano. Levantamento
feito para o canal Al Jazeera identificou 278 jornalistas e pessoal de mídia
(palestinos em sua imensa maioria) mortos em Gaza por ação de Israel. Foi
somente em agosto deste ano, transcorridos 22 meses de blecaute total, que mais
de 250 veículos de mídia de 50 países emitiram um protesto coletivo contra esse
apagamento de vidas e da História. Mas notas de protesto não bastam. Soa
infantil, mas uma flotilha encabeçada por The New York Times, The Economist,
Financial Times, Le Monde, The Guardian, El País, Haaretz, The Wall Street
Journal e outros pesos pesados poderia ter sido tentada para chamar a atenção
do mundo para o bloqueio. Consórcios multinacionais de jornalismo de qualidade,
que já provaram imensa capacidade de articulação e investigação com empreitadas
como os Panama Papers, se mantiveram de mãos atadas. No Brasil, os mesmos
jornais que no governo Jair Bolsonaro tiveram a ousadia de se organizar para
contornar o bloqueio de dados nacionais sobre a Covid-19 não consideraram mover
montanhas para acabar com o bloqueio da verdade em Gaza.
Quem apaga a luz teme o que possa ser visto. Chegará o dia
em que o governo de Benjamin Netanyahu precisará entreabrir os portões da
desumanidade. A imprensa mundial acorrerá e fará descrições caudalosas da
desolação. Tarde demais. O que aconteceu em Gaza ninguém quis ver.

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