Negócio pode ter interesse, até por estratégia
diplomática, mas é pequeno e difícil
Ideias nacional-desenvolvimentistas de criar valor
agregado podem dar em besteira
Terras
raras tornaram-se assunto comum. Ficaram famosas por causa do conflito
entre China e EUA. Alguns desses elementos químicos servem para fazer
superímãs, utilizados em produtos de ponta da tecnologia de informação e da
eletroeletrônica, insumos para carros, turbinas eólicas ou equipamento militar.
A China domina
tecnologias e a cadeia de produção de terras raras. Fabrica mais de 90% dos
ímãs do mundo.
O Brasil tem possibilidades interessantes, embora difíceis,
nessa área. Há indícios de que disponha de grandes reservas de terras raras.
Mas o assunto já começa a render maluquices.
O Brasil não poderia "exportar
matérias-primas", teria de industrializar as terras raras em
"produtos de valor agregado". Pode ser. Mas, quando se ouve
"valor agregado", não é pequena a chance de se estar diante de
maluquice econômica (a produção pode ter "valor agregado" e ser ruim
por usar recursos de modo improdutivo).
O negócio de terras raras é pequeno. O valor global de
vendas de ímãs de terras raras seria de uns US$ 10 bilhões por ano (ímãs são
80% do valor de vendas dessa cadeia). É menos do que a exportação anual de café
do Brasil, um terço da exportação de minério de ferro, um quarto da exportação
de petróleo.
No Ocidente, empresas do setor penam para dar resultado. O
Departamento de Defesa dos EUA tornou-se sócio maior da única empresa americana
que ora pode dominar a cadeia inteira, subsidiando o negócio. É assunto de
guerra.
Desde 2019, a China limita a exportação de terras raras e
suas tecnologias; colocou o setor sob estrito controle estatal. As restrições
foram ao ápice na semana retrasada. Sem tais produtos, o desenvolvimento e a
produção de equipamento militar americano ficam para trás. Claro, sem tais
insumos, fábricas civis do Ocidente podem parar.
Desde 2014, há um bom programa brasileiro de pesquisa para
aprender a usar terras raras (separar cada elemento do concentrado misto que
sai da extração e fabricar ímãs), assunto para outro dia. Empresas de EUA e
Austrália exploram ou pretendem explorar terras raras no país. Em princípio,
vão exportar o concentrado (misturado de terras raras).
Separar os minérios para uso industrial é difícil. Se houver
tecnologia, técnicos e infraestrutura, de 3 a 5 anos, ao custo de US$ 100
milhões a US$ 500 milhões por unidade industrial. Já tem fábrica sendo
desenvolvida no mundo rico. A China pode manipular preços e derrubar empresas.
Até por isso também, podem ser desenvolvidas tecnologias
alternativas ou de reciclagem, para fugir da sinodependência. A restrição
chinesa pode estimular a oferta noutras partes do mundo (como ocorreu com o
petróleo a partir dos anos 1980).
É negócio de risco econômico e geopolítico, pois. Mas,
também por esses mesmos motivos, pode interessar que o Brasil faça parte dessa
cadeia: estratégia.
Mas teríamos tecnologia, capital e escala para produzir
(separar) os minérios ou fazer ímãs? Para qual uso? Para a minguante indústria nacional?
Para competir com fábricas de EUA, Europa, Austrália, Canadá, Japão, algumas
subsidiadas? Precisamos de política industrial (e, mais ainda, para serviços),
mas talvez não aí.
Seria interessante atrair mais investimento para a extração
e fazer alianças diplomáticas. Terras raras não serão uma mina de ouro. O país
tem possibilidades maiores em outras minerações, onde há muitíssimo por fazer,
em termos de pesquisa, investimento e remoção de entulho regulatório.

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