Heliópolis, que recentemente ganhou um teatro de alto
padrão para sua sinfônica, tem se beneficiado de uma sucessão de iniciativas de
origem popular
Um mês antes deste Natal, a favela de Heliópolis, em São
Paulo, inaugurou o Teatro Baccarelli, com 530 lugares, de acústica de alto
padrão. Ali é a casa da Orquestra Sinfônica de Heliópolis, regida pelo maestro
Isaac Karabtchevsky, e do Coral Jovem Heliópolis, regido pelo maestro Otávio
Piola.
A orquestra tem se apresentado em diferentes salas de
concerto da cidade de São Paulo, do estado e de outros estados. A competência
profissional de seus músicos tem atraído a visita de grandes nomes da música
interessados em conhecer a experiência.
Sensibilizado por um incêndio, ocorrido em 1996, que
destruiu barracos na favela, o maestro Silvio Baccarelli, mineiro, ex-padre,
professor de música, morador das proximidades, começou a dar aulas de música
para crianças do lugar. A iniciativa expandiu-se e deu nascimento ao Instituto
Baccarelli.
Heliópolis talvez seja no mundo o primeiro
desse gênero de coletividade a ter orquestra sinfônica e o respectivo teatro de
alto padrão. Uma das maiores do país, tem, segundo o Censo do IBGE, 55 mil
habitantes.
Caracteriza-se por uma sucessão de iniciativas de origem
popular e com apoio de convênios com instituições que ali viabilizam uma
peculiar versão da chamada revolução urbana.
Mas também de parte da própria população de Heliópolis
surgiram iniciativas de inovação social. Até surpreendentes indícios de uma
movimentação popular na favela de Heliópolis vieram a lume com o documentário
cinematográfico de Wagner Morales, “Preto Contra Branco”, de 2004.
Morales, formado em ciências sociais pela USP, estudou e
documentou um grupo que, na favela, desde o início dos anos 1970, resolvera
enfrentar a seu modo o problema do racismo, forte no vocabulário cotidiano da
população local. Majoritariamente constituída por migrantes do Nordeste e por
mestiços, sobretudo de uma mestiçagem que se acentuou no encontro inter-racial
dos adventícios. Os que foram atraídos pelas possibilidades de trabalho da
região.
Queixavam-se, no entanto, dos xingamentos racistas entre
eles. Filosofavam: xingamentos racistas entre amigos não são racismo porque a
situação não é racista. Isso é sociológico. Tem muito da sociologia de Antonio
Gramsci, dos “Cadernos do cárcere”. Expressão da dupla linguagem e duplas e
coexistentes sociabilidades, como se fossem duas sociedades diferentes
constituídas pelas mesmas pessoas. Duplas e antagônicas personalidades.
Foram esses migrantes que tiveram uma das mais criativas
iniciativas no sentido de redefinir valores sociais e refundar o comunitarismo
de origem. Trabalhadores, reuniam-se no começo da noite para o jogo do 21 e a
cervejinha. E para conversar.
Não era incomum o palavrão e xingamento de cunho racista.
Especialmente nas disputas de futebol de várzea dos fins de semana. Um senhor
preto, idoso, com liderança no grupo, propôs que se fizesse uma disputa anual,
antes do Natal, de pretos contra brancos. Com forte incidência de mulatos na
população, os participantes dos times, porém, tinham que decidir se eram
brancos ou pretos.
Essa proposta acirrou o conflito racial, embora fossem todos
amigos e até parentes. A proposta inclui a presença das famílias e a realização
de um churrasco coletivo de confraternização, independentemente do resultado do
jogo. Retornam à sociabilidade cotidiana não conflitiva. Acabam abraçados e
fazendo a crítica da linguagem racista empregada minutos antes.
Não parou por aí a criatividade de Heliópolis. A população
queria ter uma biblioteca comunitária. Numa das casas típicas, criou-a com base
numa lista de 100 livros sugerida por Antonio Candido, da USP.
De grande importância e de grande repercussão na concepção
de modo de viver e de morar, em Heliópolis, são os condomínios inventados e
implantados pelo arquiteto Ruy Ohtake.
Ele fizera uma visita à favela e comentara, numa entrevista,
que as habitações eram muito feias. Um morador o visitou e o desafiou: por que
então ele não fazia a favela ficar bonita? Ele começou a refletir sobre o
problema de moradia para as populações desvalidas. Conseguiu convencer o
programa federal Minha Casa, Minha Vida a aceitar sua sugestão de que uma
transformação no morar dependia de uma mudança radical na concepção de
condomínio e de habitação.
Criou os chamados “Redondinhos”, diferentes e opostos aos
conjuntos do Projeto Cingapura e do Projeto CDHU, que são habitações de
confinamento e isolamento e de sociabilidade restritiva, baseadas no primado da
linha reta.
Nos “Redondinhos”, o espaço do pátio é especialmente
destinado à sociabilidade das crianças e dos vizinhos. O desenho circular dos
apartamentos abre-os para uma visibilidade externa ampla, superadora da
visibilidade voltada para dentro.

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