A ideia de Igreja de Leão é a mesma que levou d. Paulo a
se envolver no projeto Brasil Nunca Mais
De volta da Turquia, Leão XIV foi questionado por que não
rezara na Mesquita Azul, em Istambul, como fizeram Bento XVI e Francisco. Ele
respondeu: “Quem disse que não rezei? Pode ser que eu esteja rezando agora”. E
completou: “Prefiro rezar em uma igreja católica, na presença do Santíssimo
Sacramento”.
O papa Prevost parece conciliar os pontificados de Ratzinger
e de Bergoglio. Ele aproveitou, dias depois, a audiência com novos embaixadores
para dizer que a Igreja “não ficará em silêncio diante das graves
desigualdades, injustiças e violações dos direitos humanos fundamentais”.
Legitimava, assim, o trabalho de Baltazar
Porras, o cardeal de Caracas, que teve o passaporte apreendido e foi impedido
de deixar o país por denunciar violações de direitos do ditador Maduro. No
Brasil, como fazia o SNI, um deputado denunciou ao Vaticano o padre Julio
Lancellotti por sua pregação política, o que está além do uso de redes sociais.
Surge a questão se a Igreja de Prevost é a mesma vivida por d. Paulo Evaristo
Arns, na luta contra os delitos da ditadura militar. Dom Paulo acolheu
perseguidos fossem quem fossem; o que lhe importava era a humanidade e a sua
memória.
Foi por essa razão que o cardeal se envolveu no Projeto
Brasil Nunca Mais. A história de sua ação e de personagens, como o advogado
Luiz Eduardo Greenhalgh, está no livro Nunca Mais – Os Bastidores da
Maior Denúncia Contra a Tortura já Feita no Brasil, do jornalista Camilo
Vannuchi. Com recursos do Conselho Mundial das Igrejas (CMI), copiou-se em
segredo um milhão de páginas de casos do Superior Tribunal Militar,
identificaram-se 494 responsáveis por prisões e torturas e mapearam-se 242
centros onde tudo acontecia.
Foi d. Paulo quem sugeriu ao advogado que procurasse o
pastor Jaime Wright, que abriu as portas do CMI – ele enviava secretamente ao
Brasil, todo mês, emissários com dinheiro para o projeto. Em São Paulo, as
cópias eram guardadas na sede do Instituto Sedes Sapientiae e, depois, na
paróquia Nossa Senhora Mãe da Igreja. Usaram um computador CP500 – novidade na
época – para preencher planilhas e concluir o trabalho.
Quando ficou pronto, o relatório que os organizadores
queriam divulgar tinha 5,2 mil páginas. E d. Paulo questionou: “Quem vai ler
5,2 mil páginas? Vocês precisam fazer uma síntese da síntese. Essa pesquisa
precisa virar um livro de 300 páginas”. O livro de d. Paulo – o Brasil: Nunca
Mais – foi publicado em 1985 e se tornou um dos mais importante relatos sobre
violações de direitos humanos na América Latina. Ao completar 40 anos, Vannuchi
o resgata ao mesmo tempo que a manifestação de Leão XIV demonstra que essa
missão não acabou.

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