A estratégia consiste em cercar certas políticas com um
cordão sanitário
Os direitos humanos, criados para proteger os indivíduos
contra o poder absoluto, têm sido usados para um novo tipo de arbítrio: decidir
o que pode ou não pode ser dito no debate público. Certas políticas vêm sendo
apresentadas como a própria materialização dos direitos humanos, de maneira que
contestá-las põe o crítico como inimigo da humanidade. Ao bloquear o debate
civilizado, as inquietações sociais sobre essas políticas passam a ter como
únicos porta-vozes os radicais que não temem o estigma de inimigos dos direitos
humanos.
A estratégia consiste em cercar certas
políticas com um cordão sanitário, de maneira que ultrapassá-lo para discutir
sua conveniência, ou mesmo sua eficácia, passa a equivaler a pôr em questão os
próprios direitos humanos. Em muitos lugares, não é mais possível discutir as
cotas raciais para acesso à universidade ou ao serviço público. Cotas viraram
sinônimo de luta contra o racismo — não são vistas como boa política para
combatê-lo, mas como a própria materialização do antirracismo. Criticá-las,
portanto, equivale a colocar-se a favor do racismo e fora da decência humana.
Criticá-las tornou-se imoral.
Essa circunstância em tese “protege” a política e a
população beneficiada por ela. No médio prazo, porém, certamente a prejudica.
Como se torna perigoso promover debate público sobre cotas, a insatisfação
social com a política vai acumulando, sem resposta. Há muitas questões sobre as
cotas — desde a noção de que comprometem o sistema de ingresso meritocrático,
permitindo a alguns “furar a fila”, até a visão segundo a qual prejudicam os
pardos que não são aprovados nas bancas de heteroidentificação (que buscam
avaliar pelo fenótipo se alguém de fato é negro). Por esses e outros motivos,
as cotas têm perdido apoio público.
Porém, uma vez que colocar-se como crítico das cotas tem
custo reputacional alto, há pouco debate. E o pouco debate que existe é feito
pelos radicais que não se importam com o estigma. Interditar a discussão não
elimina as questões; apenas entrega o monopólio das respostas a quem não
respeita limites.
Acontece a mesma coisa com a segurança pública. O debate
sobre como combater a criminalidade está repleto de interdições. Não é possível
discutir com sobriedade as “saidinhas” dos presídios ou as abordagens de
suspeitos sem correr o risco de ser acusado de defender o racismo, o apartheid,
o vigilantismo ou mesmo o genocídio. Ao cercar o debate da segurança pública
com uma barreira moral, empurramos os insatisfeitos aos braços de quem promete
ordem a qualquer custo.
Direitos humanos são valores normativos que devem servir de
parâmetro para avaliar as políticas, mas nenhuma política deveria ser
considerada sua expressão pura incontestável. Estamos moralizando o debate
público, criando uma religião civil em que certas políticas foram sacralizadas
— e, consequentemente, discordar delas virou profanação.
Criamos uma polícia do discurso que traça linhas e define
quem são os virtuosos do lado de dentro e quem são os abjetos que devem ficar
do lado de fora. Uma vez que você é empurrado para fora da fronteira, nada do
que diz precisa ser ouvido, pois você perdeu o status de interlocutor
respeitável, civilizado.
Ao empregar os direitos humanos como arma de exclusão,
também entregamos o microfone aos radicais. Quando o debate matizado é
interditado, ele é tomado por quem não vê problema em ser vilão. O resultado é
uma esfera pública abafada, onde o cidadão comum se refugia no silêncio
amargurado ou na revolta ressentida. As consequências políticas desse silêncio
e dessa revolta são bem conhecidas dos brasileiros.

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