Diz o poeta que o último dia do ano não é o último dia da
vida. Ela é um fluxo incessante.
Muitos problemas do ano que termina se projetam no ano que
começa. Com as eleições, surgem sempre esperanças. Uma delas é a de o Brasil
seguir seu caminho de interlocutor na crise ambiental. Podemos esperar
novidades sobre transição energética, proteção das florestas e, quem sabe, é
possível que o oceano seja finalmente notado pelos dirigentes nacionais.
A própria política externa, que tem pouco espaço nos
programas eleitorais, tem crescido. Estamos, por exemplo, diante de uma nova e
agressiva Doutrina Monroe com a possibilidade de guerra na Venezuela – com quem
temos 2.199 quilômetros de fronteira. Será interessante examinar a posição dos
candidatos. Ninguém defenderá Maduro, como aliás, ninguém defendeu Saddam
Hussein na guerra do Iraque. No entanto, muitos condenaram a invasão americana.
O que aconteceu no Iraque parece bastante remoto diante de uma crise armada na
nossa fronteira num ano eleitoral.
As eleições vão ocorrer num momento especial, sobretudo no
Congresso. Os parlamentares conseguiram incluir no Orçamento uma verba de R$ 60
bilhões para suas emendas. Além disso, na forma de um jabuti, tentam resgatar
R$ 3 bilhões da verba do famoso orçamento secreto. A pressão por transparência
continua, mas os deputados gostam de trabalhar no escuro.
A Polícia Federal é um ator importante, mas não tem gente
para reprimir irregularidades em tantos lugares do Brasil. A Justiça não
consegue resolver essa roubalheira, entre outras coisas, porque está
vulnerável.
Reportagem da revista Piauí mostra que
houve venda de sentenças em 11 dos 33 gabinetes de ministros do Superior
Tribunal de Justiça (STJ). E o próprio Supremo Tribunal Federal (STF) vive
agora uma crise que ele gestou quando derrubou o artigo que proibia julgar
processo defendido por parentes. O caso da mulher de Alexandre de Moraes com o
contrato de R$ 129 milhões com o Banco Master é típico. No passado, houve um
embate com a Receita Federal porque ela investigava as contas das mulheres de
Gilmar Mendes e Dias Toffoli. Para combater notícias sobre os parentes
milionários, na época, Toffoli, presidente do STF, designou Alexandre de Moraes
para dirigir um inquérito contra notícias falsas. O inquérito existe até hoje e
se voltou nos últimos anos contra a extrema direita. A agora ex-mulher de
Toffoli, Roberta Maria Rangel, advogou para a J&F, a mesma de quem Toffoli
perdoou a multa de R$ 10 bilhões. O mesmo Toffoli reaparece agora chamando para
si o inquérito do Banco Master e decretando sigilo absoluto.
Pessoas bem-intencionadas fazem uma campanha para que o STF
adote um Código de Conduta. Se houvesse, acreditam, Toffoli não viajaria de
graça no mesmo avião do advogado do Banco Master. Mas a raiz desse problema
está nos escritórios de parentes. O da ex-mulher de Toffoli aumentou sua
atuação no STF em 140% depois que ele tomou posse. A mulher de Alexandre de
Moraes aumentou seu patrimônio em 232% num ano.
As eleições para presidente têm um favorito inquestionável.
Mas a estratégia da direita é ocupar o Senado para questionar os ministros do
STF. Do jeito que as coisas caminham, ela vai aproveitar a oportunidade. Seu
questionamento não passa pela cobiça dos ministros, mas sim pela sua repressão
a atividades políticas.
Na verdade, a direita tem pouco a dizer sobre esses
problemas de agora. Na votação para derrubar o artigo 144, que proibia juízes
de julgar casos de parentes, dos dois indicados por Bolsonaro, Nunes Marques e
André Mendonça, votaram a favor da derrubada. Sobraram apenas os quatro
ministros dos 11 que votaram contra, provavelmente prevendo a crise de
legitimidade que viria depois.
Talvez o Banco Master ocupe uma parte da campanha. Talvez o
escândalo do INSS ocupe outra. Qual a razão para nos determos na chuva de
escândalos de 2025? É muito difícil propagar apenas esperança quando a grande
desconfiança que existe sobre os políticos e que produziu uma falsa saída em
2018, não foi completamente superada.
Agora, a desconfiança se estende também à Justiça. Isto
significa que o terreno continua fértil para aventuras. Em 2018, a proposta era
de uma nova e milagrosa política que iria varrer a corrupção. A experiência
terminou com a derrota eleitoral de 2022 e uma tentativa de golpe combatida
pelo Supremo, que se apresentou como o grande salvador da democracia. Com os
acontecimentos recentes e a exposição do Supremo, temos de nos perguntar quem
nos salvará dos nossos salvadores.
Todo esse processo pode levar a uma desilusão improdutiva ou
a um amadurecimento democrático que supere esses grandes problemas nacionais.
É um dilema essencial no ano que entra. Se pudermos
equacioná-lo será realmente um feliz ano-novo.
Não precisamos nem poderemos resolver tudo. Embora os anos
se entrelacem, seria uma dádiva ter novos problemas para resolver no ano
seguinte e não essa sensação pantanosa que nos trouxe a esse ano que termina.
Artigo publicado no jornal Estadão em 02 / 01 / 2026

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