São evidentes os sinais de que a campanha começou. Lula
ironiza Trump porque sabe que o presidente americano será um bom cabo eleitoral
para ele e um transtorno para o adversário. No capítulo das polêmicas, o debate
Romeu Zema x Gilmar Mendes teve grande destaque. Zema é azarão, a julgar pelas
pesquisas. Mas tem um marqueteiro audacioso, que fez animação criticando os
ministros do STF. Gilmar saiu para o debate, dando entrevistas a jornalistas,
sem escolher os mais camaradas. O resultado foi uma grande exposição do
ministro e, provavelmente, um ligeiro avanço de Zema nas pesquisas.
Gilmar expôs muitos aspectos de sua personalidade que não
eram tão conhecidos. Começou por criticar a maneira como Zema falava, “algo
parecido com o português”. O ministro chegou a pensar que era o idioma falado
em Timor-Leste. Zema pode ser complicado, mas fala com um sotaque mineiro.
Suponhamos que uma ou outra palavra não seja usual. Mas, com base nessa
premissa, consideraríamos o “Grande Sertão” de Guimarães Rosa um verdadeiro
atentado.
Parece que os mineiros gostam de brincar com as palavras.
Outro dia vi nas redes uma linda jovem mineira ensinando xingamentos:
estrupício, energúmeno, marmota e songamonga. Quando cobri a Farra do Boi,
ritual hoje proibido, notei que os moradores do litoral falavam também com
forte sotaque, marcado pela colonização açoriana em Santa Catarina. No Rio
Grande do Sul, conheci um dialeto de origem italiana falado por todos na
cidade. Era o talian. Alguns sinais de trânsito na cidade de Serafina Corrêa
também eram nesse dialeto.
A diversidade aconselha a não se escudar no português
castiço. Mas esse foi apenas um detalhe na longa exposição de Gilmar. Ele
reclamou que o Brasil tem 180 milhões ou 200 milhões de juristas, reproduzindo
aquela frase de que o país tem 200 milhões de técnicos de futebol. Isso
acontece porque somos apaixonados por futebol, e muitas vezes a pressão sobre o
técnico acabou levando a soluções bem-sucedidas. Qual é o problema de termos
200 milhões de juristas? O tema deveria ser proibido para os não especializados?
Gilmar não só aconselhou a investigar Zema, como afirmou
defender que o inquérito das fake news dure até depois das eleições. É uma
certa superestimação dos poderes de Alexandre de Moraes, acossado pelo
escândalo do Master. Se a Polícia Federal for acionada para defender o Supremo
de ataques, corre o risco de ser soterrada pela demanda. As críticas ao Supremo
são inevitáveis. As mais duras, sem dúvida, virão da direita, mas a esquerda
também propõe uma reforma do Judiciário.
A proposta de levar o inquérito das fake news até as
eleições, sem dúvida, é o aspecto mais grave da temporada de entrevistas de
Gilmar. Tem um viés intimidativo que acaba revelando uma posição autoritária,
sugerida pelo elitismo no idioma e pela crítica à participação popular nas
decisões jurídicas.
Sou um desses 200 milhões de juristas. Achei um absurdo o
inquérito das fake news quando foi aberto. Foi uma reação ao trabalho da
Receita, que investigava as contas das mulheres de Gilmar e Toffoli. Protestei
contra a censura à revista Crusoé e pedi que Moraes e Toffoli renunciassem aos
seus cargos. Era um pedido ingênuo, mas considerava muito grave o desrespeito à
liberdade de expressão. Se tivessem ouvido aquele apelo, pelo menos não
estariam tão enroscados como agora.
Artigo publicado no jornal O GLOBO em 28 / 04 / 2026
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