Experiências e projetos em comunidades cariocas ocupam
papel central na revista aMARÉlo
Combate a estereótipos pontua série sobre Carlinhos Brown
e seu Candeal em Salvador
Eu não sabia que há quase 15 anos um homem pedala pelas ruas
da Maré levando cinema para crianças em vários rincões da favela —a
partir de um projetor doado e de potes de óleo de cozinha usados que ele
recicla para vender e manter o projeto.
Eu também não conhecia a obra de Albarte, jovem e instigante
artista plástico que mora em Guadalupe, na Zona Norte do Rio, e que tece sua
criação em consonância com o território que habita. Eu não sabia. Eu não
conhecia. Estava fora do radar.
Em meio ao barulho permanente das redes sociais que parecem
falar sempre das mesmas coisas —de comentários vazios sobre reality shows a
análises catastrofistas do noticiário ou métodos milagrosos para rejuvenescer,
emagrecer ou ascender espiritualmente em suaves prestações—, voltar a
maravilhar-se com histórias reais e diversas não é pouca coisa.
Elas se reproduzem no cotidiano das favelas
e em uma polifonia de personagens reunidos em aMARÉlo, revista lançada pelo projeto homônimo de
jornalismo cultural realizado pelo Observatório de Favelas.
Coletivos e veículos de comunicação popular que cobrem as
zonas Sul, Oeste e Norte e o Centro do Rio de Janeiro integram a iniciativa,
que tem por objetivo central ampliar e atualizar (corrigir?) imaginários
(estereótipos?) frequentemente associados à favela (e extensivos à pobreza, em
geral).
A partir da relação de confiança estabelecida com seus
vizinhos, os comunicadores de aMARÉlo conseguem descrever existências em
primeira pessoa, fora do laboratório teórico. E refletir uma dinâmica de
vivências que não são passivas, para além de concepções de escassez e
violência, e que produzem pensamento e interpretações da realidade.
Sair do piloto automático é um convite que permeia também
a biografia documental de Carlinhos
Brown, "Meia
Lua Inteira", série em exibição pela HBO. Outro filho mais da
periferia —um Candeal hoje referência urbana, mas onde não havia nem saneamento
quando Brown nasceu (como ele mesmo conta no primeiro episódio)—, o músico,
compositor e transformador social fala nas entrelinhas das incontáveis vezes em
que rompeu com expectativas, estereótipos e estatísticas.
"Eu venho aqui com todo o respeito/ Apresentar a
história de um sujeito/ Que nunca foi um marginal/ E ganhou o mundo com o
agogô, pandeiro, timbal e berimbau", enuncia na introdução que se repete a
cada episódio. É a tônica desse auto-retrato.
Sua construção não se vincula à marginalidade social (por
conta de noções de pertencimento fincadas no elo com o simbólico, o afetivo e o
ancestral, traduzidos em capital comunitário, e não pecuniário). Nem a ideias
de marginalidade cultural —as distintas origens étnicas e filiações artísticas
e intelectuais de Brown colocam a multiplicidade no eixo de sua existência e
criação, um universo inteiro atravessado por todos os outros. Muito menos à
esfera criminal: "A percussão é uma reestruturadora social. Uma comunidade
quando se junta em torno de um benefício comum ressoa positividades".
Neste maio em que oficialmente celebramos a
"libertação" dos africanos e descendentes outrora escravizados —povos
que compõem a medula da nossa identidade—, um pequeno e transformador passo
íntimo de liberdade é a alforria do olhar.

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