Filho de Bolsonaro perde apoio em grupos evangélicos, no
Sul e entre bolsonaristas que se declaram moderados
Senador mantém competitividade e continua recebendo votos
de eleitores antipetistas em embate direto com Lula
O caso "Dark Horse"
não derrubou Flávio
Bolsonaro (PL),
mas pode ter provocado um abalo em sua pré-candidatura justamente nos segmentos
em que o filho de Jair Bolsonaro deposita suas fichas para tentar
se diferenciar do pai e superar a derrota
da eleição de 2022.
Os números da primeira
pesquisa do Datafolha feita
integralmente após a revelação dos diálogos
de Flávio com o banqueiro Daniel Vorcaro apontam que o escândalo não
causou mais do que um soluço dentro do núcleo mais bolsonarista do eleitorado,
que costuma defender o clã mesmo em seus momentos difíceis.
É um conjunto de eleitores numeroso o
suficiente para reforçar a ideia de que ele está consolidado como candidato
competitivo e também para, ao que tudo indica até aqui, amenizar especulações
de que ele deveria ser substituído
imediatamente por outro nome de direita na corrida presidencial deste
ano.
Os números da pesquisa espontânea, em que o entrevistado
cita seu candidato preferido antes mesmo de ler uma lista de nomes, costuma ser
o indicador usado para medir o humor de eleitores fiéis. Neste ponto, Flávio
passou praticamente ileso pelo caso, oscilando de 18% para 17% das intenções de
voto.
A má notícia para o filho de Bolsonaro apareceu em segmentos
que também são parte da base eleitoral da direita, mas que têm uma relação mais
volátil com o bolsonarismo.
Os resultados captados pelo Datafolha mostram problemas para
Flávio em determinados grupos evangélicos, na região Sul, entre jovens adultos
e –o que é mais significativo– entre bolsonaristas que se descrevem como
moderados.
Este último segmento é formado por eleitores que se declaram
bolsonaristas, mas se posicionam na segunda posição de uma escala que vai de 1
a 5 —em que o primeiro estrato é formado por bolsonaristas fiéis, o ponto
central é de eleitores não alinhados, e o quinto grupo é formado por petistas
fiéis.
Nesse grupo de bolsonaristas que se declaram moderados,
Flávio foi de 53% para 40% das intenções de voto em uma semana. É um segmento
pouco numeroso, representando cerca de 5% do total de entrevistados, mas que é
alvo do senador e que pode fazer a diferença numa eleição apertada.
Entre eleitores evangélicos, base
importante do bolsonarismo e sensível a escândalos morais, Flávio estava
com 49% e agora aparece com 42% das intenções de voto no primeiro turno. Ali,
sua rejeição era de 28% e está em 34%.
No Sul, a queda foi maior, de 48% para 35%. Entre eleitores
de 25 a 34 anos de idade, que representam uma boa parcela da população
cronicamente online, o baque foi de 11 pontos percentuais.
A pré-campanha de Flávio entra agora numa fase de avaliação
de danos e de riscos. Eventuais novas revelações poderiam manter a ferida
aberta e provocar uma lenta sangria de eleitores contrariados com sua relação
fraterna com Vorcaro.
Para tirar o senador do jogo, porém, seria necessário um
movimento em massa de eleitores de direita para nomes como Ronaldo
Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo)
ou Renan
Santos (Missão). Até agora, nenhum deles mostrou capacidade de
convencer os bolsonaristas de que são opções mais viáveis do que Flávio.
Uma das razões para isso é o fato de que o filho de
Bolsonaro ainda é um forte depositário do antipetismo, o que o leva a reter
votos de eleitores de direita mesmo sendo alvo de questionamentos.
Esse, aliás, foi um fator que parece ter amortecido o
tropeço de Flávio na simulação de segundo turno do Datafolha. Enquanto no
primeiro turno o filho de Bolsonaro aparece nove pontos atrás de Lula (PT), no
embate direto ele consegue ficar a quatro pontos do petista.
*Diretor da Sucursal de Brasília da Folha. É mestre em
ciência política pela Universidade Columbia (EUA).

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