Com os velhos caciques, o Rio de Janeiro era uma feitoria
político-social; hoje, uma malfeitoria estrutural
Essa é a saga ominosa de 30 anos de governos cariocas
finalizados na prisão
"Malandro demais se atrapalha", rezam as rodas de
brasilidade, onde sabedoria é experiência vivida. Isso se revela na profilaxia
administrativa operada pelo governo interino do Rio de
Janeiro. Pode-se rir ou chorar ao tomar conhecimento, por exemplo, de que o
ex-governador Cláudio
Castro tinha criado uma Subsecretaria de Gastronomia, com nada menos
do que uma "Superintendência de Demandas Cotidianas". E dirigida por
ninguém menos que Pazuello, o general-ministro bolsonarista da pandemia.
Malandro, porém, se atrapalha mesmo. Tantas
fez e cargos inventou o ex-governador para multiplicar favores a prefeitos,
legisladores e dono de refinaria que o pote de espertezas transbordou como vaso
sanitário. Garantido pelo STF, o interino Ricardo Couto comanda uma reorganização que já limpou
um terço das secretarias e cerca de 1.700 cargos comissionados. A maioria não
precisava sequer comparecer ao trabalho. Inexistente, por sinal, como dita a
lei da malandragem.
Em princípio, seria chover no molhado qualquer análise das
engrenagens de um desgoverno, considerando-se que a corrosão da função pública
transparece sem filtros no apodrecimento ético dos dirigentes. Podre, aliás,
não é metáfora gratuita: assim o mercado financeiro chama papel sem nenhum
valor. Cláudio Castro investiu neles R$ 1 bilhão do fundo de pensão do estado
para ajudar o Banco Master.
Abismo chama abismo. Essa é a saga ominosa de 30 anos de
governos cariocas finalizados na prisão, com desenredo especial pelo oxímoro
Castro: inelegível, mas aspirante ao Senado. Ele tornou mais visível o epílogo
de um longo e ruinoso percurso político, não só no nível das finanças públicas,
mas também das consequências sociais das gestões corruptas. A varredura atual é
alvissareira, embora provisória e assediada por clãs, ávidos por uma
marcha-a-ré.
Com os velhos caciques, o Rio era uma feitoria
político-social. Hoje, uma malfeitoria estrutural. No balanço das governanças
impolíticas, transparece um estado afetado por déficit fiscal insanável e pela
voracidade de grupos em torno da apropriação dos recursos públicos. Não mais
caciquismo político, e sim uma malandragem tóxica constituída por clãs,
híbridos de famílias com delinquentes. Cargos oficiais são criados e
canibalizados por interesses temporários. Uma subsecretaria de bem-comer e por
que não uma superintendência de demandas gourmets? Malandro sugeriu, fez-se.
Há disso tudo noutras regiões, mas o Rio virou laboratório
de graves patologias sociais. Primeiro, a síndrome dos
territórios, demarcados por milhares de barricadas e defendidos com armas de
guerra e mercenários de know-how ucraniano. Bicheiros, milicianos, traficantes
e policiais dão-se as mãos ou se engalfinham ante o pano de fundo cenográfico
da mídia que envelopa a cidade. Depois, o tecido social criminogênico que,
desde "zonas de influência" ilegalistas, favorece o recrutamento para
a bandidagem e a malignidade dos clãs políticos, cujos rebentos almejam no
Estado-nação o status de malandros federais.
É desanimador. Mas, como no mito, Hércules limpou com rios
as estribarias do rei, a sujeira moral e cívica acumulada no Rio poderia ser
lavada em urnas reais. Quando a sociedade civil acordasse.

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