Estudo mostra a rápida erosão do soft power da grande
potência
Entre 68 países, EUA estão em 64°, à frente apenas de
Irã, Afeganistão, Coreia do Norte e Israel
Em pouco mais de um ano, Donald Trump abalroou
o conjunto de instituições que deram feição própria à ordem internacional
liberal, criada no segundo pós-Guerra e da qual os EUA foram avalista e
principal beneficiário.
Megalomaníaco, desorganizou o sistema de comércio com o
tarifaço e debilitou o FMI e o Banco
Mundial; paralisou o Conselho de Segurança, cerne das Nações Unidas; abandonou
o Acordo de Paris, dificultando ainda mais os já penosos esforços de mitigação
da crise climática. Enfraqueceu a Otan, pilar do
sistema de segurança europeu; destruiu o Nafta (Acordo de Livre Comércio da
América do Norte), substituindo a proveitosa cooperação comercial com o Canadá e
o México pela
ameaça à soberania dos vizinhos. Invadiu a Venezuela e sequestrou seu ditador,
retomando uma prática de intervenção armada na vizinhança que se imaginava
confinada ao passado. Estrangula Cuba, ao extremar
um cruel bloqueio econômico a fim de derrubar o regime castrista. Em parceria
com Israel,
a quem apoiou no massacre de Gaza, faz
agora guerra ao Irã, com consequências imprevisíveis —mas certamente nefastas—
para o Oriente
Médio e a economia mundial.
Se o saldo é negativo para o mundo, que se
tornou um lugar ainda mais inseguro, a aposta do titular da Casa Branca no uso
despudorado de seu poder econômico e militar devasta a reputação internacional
do país.
Pesquisa recente dá conta do desastre. Conduzida pela
empresa japonesa Nira Data, a pedido da Alliance of Democracies, leva o título
de "Democracy Perception Index 2026" e foi feita em 68
países. Nela, comparam-se as percepções e sentimentos do público não só sobre o
sistema democrático mas também sobre segurança e conflitos globais, além de
avaliação, uma a uma, das nações incluídas na amostra.
Quando se coteja a diferença entre percepções positivas e
negativas sobre cada país, os EUA ocupam a 64ª posição, à frente apenas de
Irã, Afeganistão, Coreia do
Norte e Israel.
Mas não é tudo. Há três anos, as opiniões positivas sobre a
potência do norte superavam com folga as negativas. O quadro se inverteu, com a
queda vertiginosa da aprovação a partir de 2025 —não por acaso, primeiro ano de
Trump 2.0.
O estudo capta um fenômeno de consequências duradouras: a
rápida erosão do soft power (poder brando), termo caro aos estudiosos das
relações internacionais. Designa a capacidade de um país de influenciar a
conduta de outros pela persuasão e mobilização de valores compartilhados em
lugar da coerção e da força bruta, conhecidos como instrumentos do hard power
(poder duro).
Países se tornam potências internacionais quando lançam mão
de uma combinação desses dois atributos. Têm recursos econômicos e militares
para coagir, mas não se impõem por muito tempo se não souberem atrair e
convencer outras nações dos valores que defendem.
O uso cínico e desabrido que Trump faz do imenso arsenal de
recursos de coerção está destruindo o muito de poder suave que os EUA
construíram. Essa é a tese defendida por Stephen Walt, professor da
Universidade Harvard, em artigo contundente publicado na revista Foreign
Policy: "The End of America’s Soft Power". Não poderia estar
mais certo.
*Professora emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e
Ciências Humanas da USP, é pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e
Planejamento (Cebrap)

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