A revelação de que Daniel
Vorcaro negociou com Flávio
Bolsonaro (PL)
pagamentos de R$ 62 milhões para um filme sobre a vida de Jair
Bolsonaro usando uma empresa laranja deixou toda a direita
desnorteada. Na semana passada, o ex-ministro da Casa
Civil de Bolsonaro, Ciro Nogueira (PP),
recebeu a Polícia
Federal em casa em virtude da apuração que liga sua “emenda Master” a
contrapartidas generosas e milionárias.
Os dois episódios machucam a candidatura bolsonarista,
reforçam o rótulo “BolsoMaster” que o PT bolou
para martelar durante a campanha e dão um respiro aos ministros do Supremo
Tribunal Federal (STF)
atingidos pelo escândalo. Mas não garantem que Lula terá
sossego daqui para frente.
Um experiente observador de Brasília com
quem conversei outro dia definiu bem a situação ao dizer que Vorcaro comprou
todo mundo que estava à venda. Tinha “irmãos” e “amigos de vida” em todo o
espectro ideológico e em todos os níveis hierárquicos que importam nos três
Poderes. A investigação entrou no mundo político pela direita e pelo Centrão,
mas há denúncias para todos os gostos, e tudo o que puder ser explorado
politicamente será.
A dúvida do momento é sobre quanto os brasileiros se guiarão
por essas revelações para decidir o voto. A Genial/Quaest divulgada
ontem traz dois dados interessantes. O primeiro mostra que 54% não tomaram
conhecimento das investigações sobre Ciro Nogueira. O segundo, que desde março
subiu de 40% para 46% a quantidade de brasileiros para quem o escândalo
do Banco
Master afeta a todos — de Lula a Bolsonaro, passando pelo Congresso,
pelo Supremo e pelo Banco
Central.
Agora, porém, é o próprio candidato a presidente o afetado
por uma denúncia. E, pelo menos por enquanto, sabe-se que, enquanto Lula
recebeu Vorcaro no Palácio do Planalto numa reunião com testemunhas para uma
discussão em que, pelos relatos, não se comprometeu com nada, Flávio se
encontrou com ele a sós mais de uma vez, além de trocar mensagens cheias de
intimidade cobrando repasses de recursos e chamando o banqueiro de “irmão”.
A reportagem do Intercept Brasil que
revelou o caso ontem mostrou ainda que o dinheiro para o filme de Bolsonaro não
foi aportado como patrocínio aberto e transparente, e sim por meio de uma
empresa laranja. Não está claro como foram feitos os pagamentos, mas há nas
mensagens conversas em que se discute o envio de dólares a uma conta no
exterior cujo titular é o advogado de imigração de Eduardo Bolsonaro.
Fornecer uma explicação convincente e limpa para tudo isso é
bem difícil, mas a experiência mostra que os apoiadores fiéis da direita e da
esquerda costumam aceitar qualquer história que venha de seus mitos, por mais
furada que seja.
Só que a disputa deste ano tende a repetir a de 2022,
fortemente polarizada e decidida pelos “independentes” — que preferiam não ter
de votar nem em Lula e nem em Flávio, mas acabarão tendo de escolher entre um e
outro. É por esses votos que se dará a batalha de 2026, e seria ingenuidade
acreditar que o bolsonarismo não reagirá.
Prever quem vence a guerra é impossível a esta altura, mas é
fácil ver o potencial do caso Master para transformar a eleição de outubro numa
carnificina típica de Quentin Tarantino, para usar a metáfora cinematográfica.
Nos filmes do diretor, é comum os personagens matarem uns aos outros no final,
e quem fica vivo nem sempre é o herói da história.

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