Bandidos atrapalham, mas o pior está mesmo na economia
insegura longa duração
Milhões de Vorcaro, vexames de um candidato, doações
eleitorais, influenciadora ligada ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e
pressões de Trump contra Cuba encheram o noticiário da semana no País, deixando
em segundo, terceiro ou quarto plano as necessidades de um Brasil ainda atolado
na estagnação. A economia brasileira cresceu 2,3% no ano passado, com expansão
de 11,7% na agropecuária, 1,8% nos serviços e 1,4% na indústria, um setor sem o
dinamismo observado nas três décadas finais do século passado. Além disso, o
avanço de 2,3% do Produto Interno Bruto (PIB) marcou uma forte perda de impulso
em relação ao ano anterior, quando o crescimento chegou a 3,4%.
Entre 2016 e 2025, a economia brasileira
teve resultados negativos em 2016 e 2020, com variação de -3,3% em cada um
desses anos. Crescimento acima da casa dos 3% só ocorreu em 2021 (4,8%) e 2024
(3,4%). No ano passado, o Brasil caiu da décima para a décima primeira posição
entre as maiores economias do mundo, perdendo a posição para a Rússia.
Essa ultrapassagem é vista com cautela por alguns
economistas e atribuída a variações cambiais. Mas a perda de impulso da
economia nacional é indiscutível, assim como sua dificuldade para crescer, de
forma sustentável, acima da faixa de 1,5% a 2% ao ano. Essa dificuldade é
explicável, em grande parte ou mesmo principalmente, pelo insuficiente
investimento produtivo, isto é, pela escassa aplicação de recursos em máquinas,
equipamentos, infraestrutura e instalações – sem contar as condições ainda
insatisfatórias da formação de capital humano.
Enquanto outros emergentes aplicam entre 20% e 24% do PIB na
formação de capital físico, o Brasil raramente investe mais que 18% e nem
sempre atinge essa porcentagem. A distância fica bem maior quando se tomam
exemplos de países como China e Índia, com taxas acima de 30% de acordo com o
informe do Fundo Monetário Internacional (FMI).
No ano passado, o investimento brasileiro ficou em 16,8% do
PIB, segundo informação recente do Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE). No ano anterior, a taxa havia chegado a 16,9%. Juros altos
podem explicar, mas apenas em parte, o baixo investimento produtivo do setor
privado. Convém levar em conta, além do custo do capital, a insegurança de uma
economia instável e pouco orientada por planos e programas de
Mas o volume insatisfatório se completa com a participação
medíocre do setor público, atribuível em parte a deficiências administrativas e
a desperdício de recursos. O investimento governamental, em todos os níveis de
poder, pode ser prejudicado por interesses políticos tanto pessoais quanto
partidários. O dinheiro enviado às bases de parlamentares federais, por meio de
emendas orçamentárias, pode ser empregado de forma pouco produtiva para o País
ou mesmo para a região.
Esse tipo de investimento fragmenta o dinheiro disponível em
aplicações desconectadas de qualquer plano regional e principalmente nacional.
Uma revisão do conceito de emenda orçamentária poderia, talvez, aumentar a
produtividade do dinheiro federal, sem eliminar o direito de participação
individual dos parlamentares na destinação de recursos. Valeria a pena,
provavelmente, examinar como funciona o sistema de emendas nos Estados Unidos e
nas grandes democracias europeias. Não tem sentido converter em fator de
desperdício a participação dos parlamentares na destinação de recursos da
União.
Um processo orçamentário mais eficiente e mais eficaz
poderia resultar em relevantes ganhos sociais e econômicos. Numa economia em
desenvolvimento e ainda marcada por graves desigualdades entre classes e
regiões, o uso mais produtivo do dinheiro público é crucial tanto para o
crescimento do PIB quanto para a melhora das condições de milhões de famílias e
pessoas.
A noção de “uso mais produtivo” é política e moralmente discutível, mas vale a pena, com certeza, propor o debate e examinar como se decide o emprego de meios públicos em economias mais avançadas, menos desiguais e com melhores condições de desenvolvimento individual e familiar. Seria uma oportunidade – vale a pena insistir – para se repensar, por exemplo, a dimensão e as formas de uso das emendas parlamentares. Talvez fosse possível, nesse debate, tornar mais clara, por exemplo, a distinção entre emenda orçamentária, de fato, e direito de uso de recursos públicos para objetivos mais particulares do que sociais.
Orçamento, no entanto, é assunto pouco discutido e escassamente acompanhado, no Brasil, mesmo por pessoas com razoável educação. Verbas orçamentárias saem do bolso dos cidadãos e resultam de seu esforço produtivo e, muitas vezes, de seus sacrifícios. Mas a maioria das pessoas parece pouco se preocupar, no dia a dia, com esses detalhes. Enquanto os contribuintes olham para outro lado, ocupantes de postos públicos, em todos os Poderes, ficam mais sossegados para usar o dinheiro dos cidadãos como quiserem – com ou sem benefício para quem produz, paga impostos e enfrenta os piores efeitos quando a inflação sobe, a economia emperra ou os dois desastres se combinam.

Nenhum comentário:
Postar um comentário