Ex-dono do Master sumiu com recursos de seus credores e
faz país pagar essa conta
Candidato em longa história de escândalos, mas ainda
assim tem cerca de 40% dos votos
Flávio
Bolsonaro é muito família. De família de golpista e de simpatizantes
do golpe. É muito amigo. Muito amigo do dinheiro vivo, da boca do caixa à
compra de casa grande. Foi amigo de uma família de milícias e de um pistoleiro.
Ainda assim, tem
perto de 40% nas pesquisas sobre a disputa da Presidência da
República.
Sabe-se agora que Flávio Bolsonaro é um dos tantos amigões
de Daniel
Vorcaro, chefe de máfia que era proprietária de banco, o Master. É
"irmão", parceiro eterno de papo reto: "Irmão, estou e estarei
contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma
luz! Abs!", escreveu
para Vorcaro quando pedinchava dinheiro, informação revelada pelo site
Intercept Brasil e confirmada em parte por este jornalista. Flávio Bolsonaro,
que escondeu a amizade, diz que não havia rolo. O silêncio vale ouro.
Ao menos pelo que se sabia até a noite
desta quarta (13), Flávio cobrava o dinheiro acertado com Vorcaro para
financiar uma hagiografia filmada de Jair
Bolsonaro. A proximidade com esse bom companheiro, "irmão", vai
pegar mal, enfim? Amizade com pistoleiro, golpista, miliciano etc., até agora
não causou aversão a boa parte da elite brasileira e a 40% do eleitorado.
É verdade que a campanha propriamente dita não começou.
Talvez então se refrescasse a memória de parte do povo. De qualquer modo, é
preciso lembrar desde já que o dinheiro do filme de promoção de Jair Bolsonaro
vinha dos fundos sujos de Vorcaro. Foram pelo menos R$ 61 milhões de um
orçamento, digamos, de R$ 134 milhões. A família Bolsonaro não faz miséria. Um
filme brasileiro premiado e reputado, "O
Agente Secreto", teria custado menos de R$ 50 milhões, segundo
informações levantadas por esta Folha.
Vorcaro não economiza nas amizades, como se sabe. Não
poupava hipérboles para a camaradagem, a fraternidade e a cumplicidade com seus
tantos amigos no poder. O senador Ciro Nogueira (PP-PI), por exemplo, é
um dos "grandes amigos de vida", escreveu Vorcaro, e
padrinho da imodéstia financeira do parlamentar, segundo acusação da Polícia
Federal. Como se sabe, de resto, Ciro Nogueira era candidato a vice de Flávio
Bolsonaro. Foi ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro, um dos sultões do
centrão e do semipresidencialismo de avacalhação bolsonariano. Muito familiar.
É preciso lembrar o que é Vorcaro e de onde vinha o dinheiro
com que azeitava sua fraternidade e a propaganda midiática para manter vivo seu
banco zumbi e atacar desafetos. Recorde-se, pois, o que eram os fundos de onde
vinha o dinheiro do filme
sobre Jair Bolsonaro, "obra prima", "emocionante", disse
o filho candidato.
Vorcaro comprou, alugou ou presenteou figuras relevantes da
política e da elite brasileira. Tinha negócios ainda pouco esclarecidos com
empresários e financistas, participações
cruzadas em empresas. Montou esquemas complicados de sumiço dos
recursos que tirava de investidores, credores do suposto banco Master.
Tomava esse dinheiro emprestado sem ter meios de pagar —que sabia não ter como
pagar. Dezenas de bilhões em ativos que em tese poderiam ser utilizados para
honrar esses compromissos eram em parte pura fraude; outros não valiam fração
do que estava nos livros. Vorcaro sumiu com dezenas de bilhões de reais, conta
que em parte vai ser paga por quase todo mundo, por meio dos bancos que
financiam o fundo do seguro de crédito (FGC), cofre arrombado pela fraude
sistêmica que era o Master.

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