Voa em jato de bet até paraíso fiscal e volta com mala
cheia por fora do raio-X
Vende aposentados de seu Estado em troca de relações
carnais com Banco Master
"O senhor sabe: centrão é onde manda quem é forte, com
as astúcias."
O centrão se transmutou. Funcionava como bloco invertebrado
da governabilidade num contrato de coalizão com o Poder Executivo, assumiu
papel de controlador do orçamento e de pulverização do dinheiro público. Em
2026, só quer manter esse controle, pouco importa quem se eleja. Nem que para
isso ameace
impeachment de ministro do STF e de presidente da República.
"Centrão é onde homem tem de ter a dura nuca e mão
quadrada."
Davi
Alcolumbre, Hugo Motta, Arthur Lira e Ciro Nogueira são
seus operadores de maior expressão no momento. Envolvidos em escândalos
de aportes suspeitos de dinheiro de aposentados no Banco Master, de
mesadas do Banco Master em troca de uma "Emenda Master", de
viagem em jato de bet a paraíso fiscal de onde voltam de mala cheia
por fora do raio-X, sua grande obra foram as emendas parlamentares.
Tornaram a separação de poderes
presidencialista numa espécie de parlamentarismo orçamentário extorsivo.
Inventaram voto censitário invertido em que a cidadania tem dificuldade de
eleger alguém que não capture dinheiro estatal. E não pagam, nem juridicamente,
nem eleitoralmente, pela perversão democrática.
"Centrão é isto: o senhor empurra para trás, mas de
repente ele volta a rodear o senhor dos lados."
Essa arquitetura foi desenhada para ser opaca e driblar o
fiscal. A hidráulica financeira irriga bases para garantir reeleição, em
prejuízo de políticas públicas universais. Tiram dinheiro e capacidade de
planejamento da saúde e da educação para comprar tratores e financiar ONGs de
aliados, instrumentos disfarçados de financiamento de campanha. Pois o fundo
eleitoral já não basta.
"Mas só se sai do centrão é tomando conta dele a
dentro."
As tentativas frustradas de o STF controlar a desordem, que
começaram sob a liderança de Rosa Weber, têm exposto as engenhosas formas de
desobediência parlamentar a decisões judiciais. Desobediência disfarçada em
jargão tecnocrático. É onde o STF reconhece sua fraqueza, onde late sem poder
morder.
"Centrão é isto, o senhor sabe: tudo incerto, tudo
certo. Tudo aqui é perdido, tudo aqui é achado. O centrão é uma espera enorme.
O centrão está em toda a parte."
Parlamentares se tornaram gestores de políticas públicas
paroquiais. A travessia do dinheiro começa na arrecadação de imposto e termina
na prefeitura aliada. O caminho entre origem e destino é uma vereda nublada,
impossível de rastrear e fiscalizar.
"O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe
para a gente é no meio da travessia."
Seu localismo não tem nada a ver com a competência municipal
de promover o "interesse local", segundo o artigo 30 da Constituição.
O interesse é reeleitoral. O centrão nunca abraçou o projeto constitucional de
promoção de direitos e igualdade.
Em vez de mudar a Constituição, concentra esforços em
parasitar financiamento do Estado. Porque direitos e igualdade dependem de
orçamento. Se o centrão o captura, a promessa constitucional se esgota como
promessa. É estratégico deixá-la no papel, pelo menos alimenta a esperança.
"Centrão é quando menos se espera. Centrão é dentro da
gente." Já antecipava Guimarães Rosa, 70 anos atrás.
*Professor de direito constitucional da USP, é doutor em
direito e ciência política e membro do Observatório Pesquisa, Ciência e
Liberdade - SBPC

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