Nem mesmo a Alemanha de Hitler, ao sediar os Jogos
Olímpicos de 1936, estabeleceu as interdições e exclusões que vemos agora nos
Estados Unidos
Os EUA e a Fifa, Donald Trump e Gianni Infantino, estão
escrevendo a página mais triste, degradante e vergonhosa da história das Copas
do Mundo. As interdições,
as exclusões, as deportações, as perseguições e as proibições que estão
praticando contra atletas, profissionais e torcedores de determinados países
ofendem a tradição e o sentido histórico dos grandes eventos esportivos de
caráter global.
Todos sabem que a Grécia Antiga não era propriamente um
país, mas uma região constituída por várias cidades independentes, fundadas por
quatro ou cinco tribos que vieram dos Bálcãs e que tinham em comum elementos
étnicos, linguísticos e religiosos. Todos diziam-se helenos por terem em comum
o deus Heleno como fundamento originário.
Com frequência, as cidades gregas travavam
guerras entre si. A partir de 776 a.C., passaram a promover, de quatro em
quatro anos, os Jogos Olímpicos. Durante sua realização, os conflitos eram
suspensos, permitindo que os atletas afluíssem em segurança à cidade-santuário
de Olímpia. As competições também tinham um caráter cívico e religioso e, além
do culto ao vigor e às capacidades físicas, visavam promover a união
pan-helênica.
Na era moderna, os Jogos Olímpicos foram idealizados pelo
Barão Pierre de Coubertin, culminando na criação do Comitê Olímpico
Internacional, em 1894, e na realização dos Jogos de Atenas, dois anos depois.
O objetivo principal era substituir os conflitos bélicos por disputas saudáveis
entre os representantes dos países participantes. O evento passou a simbolizar
a união global, consagrada na bandeira dos cinco anéis entrelaçados, que
representam os cinco continentes, e no lema latino citius, altius, fortius –
communiter (“mais rápido, mais alto, mais forte – juntos”).
A criação da Copa do Mundo de futebol, em 1928, com sua
primeira edição em 1930, no Uruguai, teve inspiração nas Olimpíadas, inclusive
no ciclo de quatro anos. Além dos impactos econômicos e sociais, o evento tem
como valor a promoção da paz e da união de diferentes culturas e povos.
Com os atos grotescos patrocinados pelos EUA, com o
beneplácito da Fifa, na atual Copa, esses valores fundantes estão sendo
apunhalados e pisoteados de forma inédita e inaceitável, confirmando que o
mundo passa por uma grave crise de sentido e que a humanidade vive um momento
de extravio no seu caminho civilizatório. Há um desalentador processo de
desumanização, marcado pelo preconceito, pela xenofobia e pela exclusão.
A equipe do Irã, que disputará partidas em estádios
norte-americanos, teve de se basear no México e nem sequer pode pernoitar nos
EUA. Os iranianos foram impedidos de adquirir ingressos para torcer por sua
seleção nas arenas esportivas. Um dos principais atletas do Iraque foi
interrogado por sete horas no aeroporto. O árbitro somali Omar Abdulkadir
Artan, um dos melhores do mundo, foi detido e deportado, ficando impedido de
apitar jogos da Copa.
A seleção do Senegal foi submetida a um repugnante
constrangimento no aeroporto, ao ter de passar por uma rigorosa e demorada
inspeção. Milhares de estrangeiros foram proibidos de entrar nos EUA. Apenas
atletas e torcedores de países ocidentais e de maioria branca não tiveram
problemas. Nem mesmo a Alemanha de Hitler, ao sediar os Jogos Olímpicos de
1936, estabeleceu as interdições e exclusões que vemos agora.
Recentemente, Trump classificou os somalis como
“repugnantes” e “imundos”. Ameaçou também apagar da história a civilização
iraniana. A estupidez e a grosseria do presidente dos EUA não têm limites. Seu
governo e suas políticas persecutórias e antidemocráticas são expressão do seu
ser demente, delirante, doentio.
Em parte, Trump e seu governo refletem o estado de espírito
do que os EUA se tornaram: um império decadente, corrupto e decrépito. Trata-se
de uma decrepitude política, moral e mental. O governo e o país parecem buscar
refúgio e isolamento na demência.
Perigosa demência, porque criminosa. Associados ao genocida
governo do premier israelense Benjamin Netanyahu, promovem guerras sem
sentido, destruição e massacres de crianças e mulheres. Perderam qualquer senso
de honra, de limite moral e de humanidade.
Esta Copa do Mundo é também a Copa da Vergonha, porque um
dos países-sede é promotor da absurda guerra contra o Irã e apoia o massacre de
palestinos, a destruição de Gaza e do Líbano. Os esportistas deveriam protestar
contra esses abusos. E a História não poderá se esquecer deste triste momento
em que vivemos. •
Publicado na edição n° 1417 de CartaCapital, em 17
de junho de 2026.

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