Integrantes do Supremo creem que o princípio de
extraterritorialidade está arraigado no Executivo e no Judiciário americanos e
não descartam ação contra Moraes
A condenação
do ex-deputado Eduardo Bolsonaro por coação a justiça deve elevar
o grau de alerta no Supremo Tribunal Federal (STF). Aumenta a
possibilidade de uma ofensiva dos Estados Unidos contra integrantes do
Judiciário, em especial contra o ministro Alexandre Moraes, que também foi
relator do processo que condenou por golpismo o
ex-presidente Jair Bolsonaro.
Integrantes da Corte creem que o princípio
de extraterritorialidade está arraigado no Executivo e no Judiciário americano
e não descartam a possibilidade de uma ação direta contra Moraes. No ano
passado, na reta final do julgamento de Bolsonaro, o governo americano
enquadrou o ministro e sua esposa, Viviane Barsi, no âmbito da Lei
Magnitsky, concebida contra violadores de direitos humanos, que permite o
bloqueio de ativos, independentemente da nacionalidade e da residência do
titular. A pressão do governo do presidente Donald Trump não ficou
por aí e envolveu também a cassação dos vistos de 8 dos 12 ministros do Supremo
e do procurador-geral da República, Paulo Gonet.
A crise paradoxalmente amainou depois da prisão de
Bolsonaro. Em dezembro, Moraes e a mulher tiveram as sanções levantadas. Na
mesma semana, o Congresso aprovou o projeto de lei da dosimetria, que pode
levar a uma redução da pena de golpistas. A norma, contudo, está com a
aplicação suspensa pelo Supremo desde maio, por decisão de Moraes, para a
análise da constitucionalidade da medida.
Decisões de Moraes têm recebido contestação internacional.
No início do mês, a Corte de Cassação da Itália, órgão máximo do
Judiciário daquele país para matérias criminais, negou
a extradição da ex-deputada Carla Zambelli. Ela foi condenada
pelo STF por violação do sistema do Conselho Nacional de
Justiça (CNJ), para inserir um mandado de prisão falso contra Moraes. O
ministro participou do julgamento que condenou Zambelli a dez anos em regime
fechado. De acordo com os magistrados italianos, houve quebra de imparcialidade,
já que Moraes foi vítima, relator e julgador.
No caso de Eduardo, Moraes faz parte da Primeira Turma que
julgou o ex-parlamentar, também como relator. E foi alvo direto da ação
considerada criminosa: Eduardo foi condenado por ter se mudado para os Estados
Unidos para fazer lobby por sanções contra o ministro, tendo pedido a aplicação
da Lei Magnitsky a funcionários do governo americano e parlamentares daquele
país.
A decisão da justiça italiana indignou integrantes do
Supremo, que consideraram desairoso a corte do país europeu questionar o
entendimento do Tribunal brasileiro. Mas optaram por uma resposta comedida, já
tendo em mente que será necessário elevar o tom quando a pressão vier dos
Estados Unidos.
Nesse sentido, aponta-se que o Supremo deve ter papel
proativo em defesa de Moraes. No ano passado, o entendimento foi de permanecer
em posição de expectativa, abrindo caminho para negociações de bastidores do
governo brasileiro que desarmaram as sanções de Trump. Desta vez, um dos
caminhos estudados é o de envolver organismos multilaterais. O Brasil preside,
por exemplo, a subcomissão de Direitos Fundamentais da Comissão de Veneza,
órgão consultivo do Conselho Europeu para matérias constitucionais,
além de integrar a Corte Interamericana de Direitos Humano.

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