É uma ilusão achar que cinco milhões de eleitores
decisivos não querem dinheiro, só amor sincero
Tim Maia, famoso cantor brasileiro que revolucionou a música
popular com sua voz inconfundível e uma fusão rítmica que uniu black music
americana ao samba e baião. Uma das mais famosas canções do artista é “Me dê
motivo”. Certamente uma metáfora do estado mental dos eleitores que devem
decidir a eleição presidencial de 2026.
Em um ambiente amplamente dividido, entre os que aprovam e
desaprovam o governo federal, entre os que acreditam ou não que Lula merece
continuar, entre os que se dizem lulistas ou antipetistas ou qualquer outra
divisão produzida pela decisão binária que o sistema eleitoral brasileiro
proporciona, acreditamos que esse grupo realmente persuasível não passa de 3%
do eleitorado. Do Leme ao Pontal, esses são quase cinco milhões de eleitores
ainda órfãos de um motivo para decidir seu voto. O que, então, vai conquistar
as mentes e corações desse grupo crítico?
O PT venceu inúmeras eleições presidenciais
com argumentos econômicos contundentes. Em 2002, Lula prometeu gerar dez
milhões de empregos para vencer José Serra (que prometia somente oito milhões).
Em 2006, a reeleição veio na esteira da escala do Bolsa Família, um programa de
transferência de renda amplamente popular. Naquela disputa, o petismo ampliou e
mudou o perfil da sua base eleitoral.
Em 2010, Dilma Rousseff, apresentada como a mãe do PAC
(Programa de Aceleração do Crescimento), prometia um crescimento chinês; o que
nunca se materializou. Em 2014, sem o crescimento, o argumento era a manutenção
dos programas sociais e dos empregos. Em 2022, Lula voltou com a promessa de
reestabelecer o consumo dos mais pobres com a metáfora da picanha e cerveja.
Do outro lado, Fernando Henrique venceu duas eleições (1994
e 1998) em primeiro turno como bastião da defesa contra a inflação. A derrubada
da inflação foi o cabo eleitoral mais eficiente da história do país.
Já Fernando Collor, autointitulado “caçador de marajás” em
1989, e Jair Bolsonaro, em 2018 se colocando como de fora do sistema, tiveram o
combate à corrupção como pilar central de suas campanhas. Num passado mais
distante, Jânio Quadros também teve êxito nacional se apresentando como de fora
do sistema e varredor da corrupção. Um posicionamento bem mais mundano que os
50 anos em 5 de Juscelino Kubitschek.
Até o momento, nenhum candidato fez acender o farol dos
eleitores decisivos. O PT que sempre vendeu esperança de prosperidade econômica
corre o risco de ir para as eleições oferecendo um reajuste da tabela do IR, um
programa de refinanciamento de dívidas, uma redução (depois de aumentar) de
taxa de blusinhas e uma promessa de se trabalhar menos no futuro (se, quando e
como o Congresso permitir). Para eleitor que “gostava tanto de você” (ou do PT)
e votou em Lula em 2022, isso ainda parece pouco para aliviar o sentimento das
durezas econômicas do dia a dia.
Do outro lado, nem um descobridor dos sete mares sabe qual a
esperança econômica a oposição irá oferecer na campanha. Não basta somente
ventilar que vão tirar o PT. Esse argumento que ao tirar o PT tudo melhora
nunca foi vencedor (nem realista). Também é difícil imaginar, em 2026, que a
vitória virá com a bandeira de combate à corrupção. Com o escândalo do Master,
poucos em Brasília se sentem em um ambiente azul da cor do mar nessa área. Em
alguns casos, membros da oposição estão mais próximos de virar “réu confesso”.
Portanto, é uma ilusão achar que esses cinco milhões de
eleitores decisivos não querem dinheiro, só amor sincero. A economia será
decisiva novamente. Será fundamental para a conquista dos 3% que as
candidaturas ofereçam um projeto real, uma ideia inspiradora, uma esperança de
vida, com melhores oportunidades, menos dívidas e mais conforto. Ou, se tudo
isso for muito difícil a essa altura, que tal somente um motivo. Um motivo que
se sustente na rua, na chuva, na fazenda e nas urnas.

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