Artista brasileiro que ocupou cargo como ministro da Cultura do Brasil, teve sua história profundamente marcada pela resistência à ditadura militar
Há 84 anos, em 26 de junho de 1942, nascia o cantor,
compositor e instrumentista Gilberto Gil.
Referência basilar da música brasileira, Gil é autor de uma
obra vasta e diversificada, caracterizada pela síntese bem sucedida entre as
tradições nacionais, a cultura nordestina e a linguagem do pop internacional,
bem como pelo engajamento nas questões sociais, políticas e estéticas do
Brasil.
Gil possui mais de cinquenta álbuns lançados e coleciona
múltiplas honrarias e condecorações — incluindo os títulos de Artista
da Paz da UNESCO e de “imortal” da Academia Brasileira de Letras.
Os primeiros anos
Gilberto Gil nasceu em Salvador, filho da professora
Claudina Passos e do médico José Gil Moreira. Passou a infância com a família
na cidade de Ituaçu, interior da Bahia, manifestando desde cedo o interesse
pela música regional, sobretudo pelo baião e pela obra de Luiz Gonzaga.
Retornou posteriormente a Salvador, onde concluiu o ensino básico no Colégio
Nossa Senhora da Vitória e estudou acordeão.
Em 1960, Gil Ingressou no curso de administração na
Universidade da Bahia. Em paralelo, deu início a sua carreira artística como
integrante do conjunto instrumental Os Desafinados. Sob influência
da bossa nova e de João Gilberto, substituiu o acordeão pelo violão e passou a
compor jingles e a fazer participações nos programas da televisão local.
Em 1963, fez amizade com Caetano Veloso, Maria Bethânia e
Gal Gosta, que se tornariam seus parceiros no show “Nós, Por Exemplo…”,
apresentado na inauguração do Teatro Vila Velha, em Salvador.
Já graduado, Gil se mudou para São Paulo, onde assumiu um
cargo na indústria Gessy Lever. Suas canções, entretanto, fizeram grande
sucesso ao serem interpretadas por Elis Regina no programa O Fino da
Bossa, exibido pela TV Record, granjeando-lhe um convite da
Philips Records para lançar um álbum. Abandonou então o emprego para dedicar-se
exclusivamente à música, mudando-se para o Rio de Janeiro.
Tropicalismo, os festivais e o exílio na ditadura
Em maio de 1967, Gil lançou seu primeiro álbum, intitulado Louvação.
Nesse mesmo ano, participou de um protesto organizado pela Frente Única da MPB
contra o uso da guitarra elétrica nas composições nacionais, mas logo rompeu
com o movimento, passando a questionar o discurso da “pureza” da cultura
popular.
Data desse período a adesão de Gil ao Tropicalismo —
movimento inspirado pelo Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade, que
preconizava a adaptação das linguagens estrangeiras à realidade nacional,
fundindo gêneros como o baião e a música folclórica com elementos do pop e do
rock.
O movimento tropicalista se consolidaria durante os grandes
festivais. No 3º Festival da Música Popular Brasileira, organizado pela TV
Record, Gil conquistou o segundo lugar com a inovadora canção Domingo
no Parque, que fundia o toque do berimbau à sonoridade das guitarras
elétricas e aliava elementos folclóricos à cadência cinematográfica da
composição.
Gil também participou da gravação do álbum Tropicalia
ou Panis et Circencis, ao lado de Caetano, Gal Costa, Nara Leão, Tom Zé e
da banda Os Mutantes. O álbum assentaria os princípios do Tropicalismo e teria
enorme influência sobre a música brasileira ulterior.
Em 1968, Gil tomou parte da Passeata dos Cem Mil, somando-se
aos críticos do regime militar. Em função do recrudescimento da perseguição
política, o cantor foi preso pela ditadura, passando dois meses na cadeia. Após
sua libertação, exilou-se em Londres, despedindo-se do Brasil com o samba Aquele
Abraço. Permaneceu exilado até 1972, iniciando um período eclético,
marcado pela aproximação com a cultura pop e pela influência de nomes como
Beatles e Jimi Hendrix.
O retorno ao Brasil
Após voltar para o Brasil, Gil lançou o álbum Expresso
2222, com canções abordando o esoterismo, a saudade e a melancolia (Back
in Bahia, O Sonho Acabou, Oriente). Em 1973, compôs a canção de protesto
“Cálice”, em parceria com Chico Buarque, que seria censurada pela ditadura.
Em 1975, Gil lançou dois novos álbuns — Gil &
Jorge: Ogum, Xangô, junto com Jorge Ben, e Refazenda. No
ano seguinte, gravou Doces Bárbaros, ao lado de Caetano, Gal Costa
e Maria Bethânia.
A partir de então, o artista renovou seu interesse pela
musicalidade afro, sobretudo após participar do Festival Mundial da Arte Negra
na Nigéria. Em 1977, gravou Refavela e nos anos posteriores
compôs diversas canções abordando a herança negra, os problemas sociais e o
racismo no Brasil (Axé Babá, A Mão da Limpeza, Oração pela Libertação da
África do Sul, etc.).
Gil também buscou inspiração no reggae, compondo uma versão
em português para No Woman, No Cry (“Não Chores Mais”), que se
tornaria uma espécie de hino não oficial do movimento pela anistia política. O
reggae também serviria de influência a outros clássicos do período, tais
como Vamos Fugir e A Novidade, além do álbum Kaya
N’Gan Daya, em homenagem a Bob Marley.
Dos anos 80 aos dias de hoje
Na década de 1980, a obra de Gil seria marcada pelo influxo
crescente do pop (perceptível nos álbuns Um Banda Um, Raça
Humana e Dia Dorim Noite Neon), da música disco (Realce)
e do rock nacional (Pessoa Nefasta).
Na década seguinte, o avanço da globalização e a revolução
digital seriam um temas recorrentes (Parabolicamará, Pela Internet). Gil
foi um dos músicos pioneiros na adaptação de sua obra ao mundo virtual, tendo
sido o primeiro grande artista brasileiro a inaugurar um canal no YouTube e
aderir ao licenciamento alternativo (Copyleft, Software Livre, Creative
Commons).
Gil também ampliou sua participação na política
institucional, exercendo o cargo de presidente da Fundação Gregório de Matos e
sendo eleito vereador pela cidade de Salvador. Entre 2003 e 2008, durante o
governo Lula, o cantor exerceu o cargo de Ministro da Cultura. Sua gestão se
destacou pela implementação dos chamados “Pontos de Cultura” e pelo fomento à
produção audiovisual.
Ainda como ministro, Gil foi nomeado Artista da Paz” e
Embaixador das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura e foi
condecorado com a comenda da Legião de Honra da França. Em novembro de 2021, o
músico foi eleito para ocupar a cadeira de número 20 da Academia Brasileira de
Letras (ABL).
Suas obras mais recentes sugerem um retorno às origens, com
a valorização dos elementos da música nordestina e da arte de Luiz Gonzaga e
Jackson do Pandeiro, destacando-se a composição de xotes e baiões (trilha
sonora de Eu, Tu, Eles e os álbuns Banda Larga Cordel e Fé
na Festa).

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