sexta-feira, 26 de junho de 2026

GILBERTO GIL: 84 ANOS DO MESTRE DA TROPICÁLIA

Estevam Silva, Pensar a História, Opera Mundi

Artista brasileiro que ocupou cargo como ministro da Cultura do Brasil, teve sua história profundamente marcada pela resistência à ditadura militar

Há 84 anos, em 26 de junho de 1942, nascia o cantor, compositor e instrumentista Gilberto Gil.

Referência basilar da música brasileira, Gil é autor de uma obra vasta e diversificada, caracterizada pela síntese bem sucedida entre as tradições nacionais, a cultura nordestina e a linguagem do pop internacional, bem como pelo engajamento nas questões sociais, políticas e estéticas do Brasil.

Gil possui mais de cinquenta álbuns lançados e coleciona múltiplas honrarias e condecorações — incluindo os títulos de Artista da Paz da UNESCO e de “imortal” da Academia Brasileira de Letras.

Os primeiros anos

Gilberto Gil nasceu em Salvador, filho da professora Claudina Passos e do médico José Gil Moreira. Passou a infância com a família na cidade de Ituaçu, interior da Bahia, manifestando desde cedo o interesse pela música regional, sobretudo pelo baião e pela obra de Luiz Gonzaga. Retornou posteriormente a Salvador, onde concluiu o ensino básico no Colégio Nossa Senhora da Vitória e estudou acordeão.

Em 1960, Gil Ingressou no curso de administração na Universidade da Bahia. Em paralelo, deu início a sua carreira artística como integrante do conjunto instrumental Os Desafinados. Sob influência da bossa nova e de João Gilberto, substituiu o acordeão pelo violão e passou a compor jingles e a fazer participações nos programas da televisão local.

Em 1963, fez amizade com Caetano Veloso, Maria Bethânia e Gal Gosta, que se tornariam seus parceiros no show “Nós, Por Exemplo…”, apresentado na inauguração do Teatro Vila Velha, em Salvador.

Já graduado, Gil se mudou para São Paulo, onde assumiu um cargo na indústria Gessy Lever. Suas canções, entretanto, fizeram grande sucesso ao serem interpretadas por Elis Regina no programa O Fino da Bossa, exibido pela TV Record, granjeando-lhe um convite da Philips Records para lançar um álbum. Abandonou então o emprego para dedicar-se exclusivamente à música, mudando-se para o Rio de Janeiro.

Tropicalismo, os festivais e o exílio na ditadura

Em maio de 1967, Gil lançou seu primeiro álbum, intitulado Louvação. Nesse mesmo ano, participou de um protesto organizado pela Frente Única da MPB contra o uso da guitarra elétrica nas composições nacionais, mas logo rompeu com o movimento, passando a questionar o discurso da “pureza” da cultura popular.

Data desse período a adesão de Gil ao Tropicalismo — movimento inspirado pelo Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade, que preconizava a adaptação das linguagens estrangeiras à realidade nacional, fundindo gêneros como o baião e a música folclórica com elementos do pop e do rock.

O movimento tropicalista se consolidaria durante os grandes festivais. No 3º Festival da Música Popular Brasileira, organizado pela TV Record, Gil conquistou o segundo lugar com a inovadora canção Domingo no Parque, que fundia o toque do berimbau à sonoridade das guitarras elétricas e aliava elementos folclóricos à cadência cinematográfica da composição.

Gil também participou da gravação do álbum Tropicalia ou Panis et Circencis, ao lado de Caetano, Gal Costa, Nara Leão, Tom Zé e da banda Os Mutantes. O álbum assentaria os princípios do Tropicalismo e teria enorme influência sobre a música brasileira ulterior.

Em 1968, Gil tomou parte da Passeata dos Cem Mil, somando-se aos críticos do regime militar. Em função do recrudescimento da perseguição política, o cantor foi preso pela ditadura, passando dois meses na cadeia. Após sua libertação, exilou-se em Londres, despedindo-se do Brasil com o samba Aquele Abraço. Permaneceu exilado até 1972, iniciando um período eclético, marcado pela aproximação com a cultura pop e pela influência de nomes como Beatles e Jimi Hendrix.

O retorno ao Brasil

Após voltar para o Brasil, Gil lançou o álbum Expresso 2222, com canções abordando o esoterismo, a saudade e a melancolia (Back in Bahia, O Sonho Acabou, Oriente). Em 1973, compôs a canção de protesto “Cálice”, em parceria com Chico Buarque, que seria censurada pela ditadura.

Em 1975, Gil lançou dois novos álbuns — Gil & Jorge: Ogum, Xangô, junto com Jorge Ben, e Refazenda. No ano seguinte, gravou Doces Bárbaros, ao lado de Caetano, Gal Costa e Maria Bethânia.

A partir de então, o artista renovou seu interesse pela musicalidade afro, sobretudo após participar do Festival Mundial da Arte Negra na Nigéria. Em 1977, gravou Refavela e nos anos posteriores compôs diversas canções abordando a herança negra, os problemas sociais e o racismo no Brasil (Axé Babá, A Mão da Limpeza, Oração pela Libertação da África do Sul, etc.).

Gil também buscou inspiração no reggae, compondo uma versão em português para No Woman, No Cry (“Não Chores Mais”), que se tornaria uma espécie de hino não oficial do movimento pela anistia política. O reggae também serviria de influência a outros clássicos do período, tais como Vamos Fugir e A Novidade, além do álbum Kaya N’Gan Daya, em homenagem a Bob Marley.

Dos anos 80 aos dias de hoje

Na década de 1980, a obra de Gil seria marcada pelo influxo crescente do pop (perceptível nos álbuns Um Banda UmRaça Humana e Dia Dorim Noite Neon), da música disco (Realce) e do rock nacional (Pessoa Nefasta).

Na década seguinte, o avanço da globalização e a revolução digital seriam um temas recorrentes (Parabolicamará, Pela Internet). Gil foi um dos músicos pioneiros na adaptação de sua obra ao mundo virtual, tendo sido o primeiro grande artista brasileiro a inaugurar um canal no YouTube e aderir ao licenciamento alternativo (Copyleft, Software Livre, Creative Commons).

Gil também ampliou sua participação na política institucional, exercendo o cargo de presidente da Fundação Gregório de Matos e sendo eleito vereador pela cidade de Salvador. Entre 2003 e 2008, durante o governo Lula, o cantor exerceu o cargo de Ministro da Cultura. Sua gestão se destacou pela implementação dos chamados “Pontos de Cultura” e pelo fomento à produção audiovisual.

Ainda como ministro, Gil foi nomeado Artista da Paz” e Embaixador das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura e foi condecorado com a comenda da Legião de Honra da França. Em novembro de 2021, o músico foi eleito para ocupar a cadeira de número 20 da Academia Brasileira de Letras (ABL).

Suas obras mais recentes sugerem um retorno às origens, com a valorização dos elementos da música nordestina e da arte de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, destacando-se a composição de xotes e baiões (trilha sonora de Eu, Tu, Eles e os álbuns Banda Larga Cordel e Fé na Festa).

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