Ao criticar enteado pré-candidato a presidente,
ex-primeira-dama atesta maneira subalterna como clã enxerga as mulheres
O longo vídeo de Michelle Bolsonaro é um dos mais eloquentes
testemunhos de alguém literalmente de dentro a respeito de algumas das
principais características que estão no DNA do bolsonarismo: o mandonismo do
“capitão”, a franquia familiar como objetivo político maior e o completo
desprezo às mulheres como marca indelével.
Ela pode ter pretendido atingir Flávio Bolsonaro, mas, se
levadas a sério, suas palavras expõem a maneira como seu “galego”
instrumentalizou a ela própria para atingir o eleitorado feminino, que sempre
foi um ponto fraco para a chegada e a permanência de Jair no poder.
Mesmo fazendo uso da linguagem e da lógica
caras ao feminismo quando lhe convém, Michelle, na verdade, aceita, legitima e
reproduz a maneira subalterna como o clã enxerga a mulher: sempre a serviço do
projeto e dos desígnios de um homem, que não pode nunca ser questionado.
Muito se especulou desde quarta-feira se ela pretenderia,
com o longo texto — que pode parecer desabafo, mas foi meticulosamente
calculado, pesado, testado e ensaiado —, disputar com o enteado o posto de
candidata a presidente, mas o objetivo imediato parece ser mais localizado. A
aposta num voo presidencial fica evidente, mas ela parece mirar antes 2030 que
agora.
Os intentos de curtíssimo prazo são assegurar a candidatura
de suas aliadas na direita, um espaço de atuação no PL, um pedido público de
desculpas (que atende menos a um propósito de madrasta magoada e mais à
necessidade de firmar posição pública) e a implosão do apoio a Ciro Gomes no
Ceará. Dado o falatório que provocou, é possível que saia com o pacote
completo.
Não parece provável que os potenciais eleitores de Flávio
Bolsonaro migrem em massa do apoio a ele para qualquer outro candidato por
causa da lavação de roupa suja em público de Michelle. Mas o vídeo tem o efeito
de provocar urticária naquele eleitor que votou em Lula em 2022 a contragosto,
entre outros motivos, pelas tretas permanentes da família e por sua capacidade
infinita de gerar crises sem a necessidade de que a esquerda mova uma palha.
Esse é um pedaço do eleitorado que as pesquisas classificam como independente,
mas que define o voto antes pela lógica do que lhe provoca mais aversão, Lula
ou a volta do bolsonarismo ao poder.
Ao confirmar padrões e estigmas que pesam para a rejeição ao
clã, Michelle mirou em Flávio, mas acertou no legado do marido — e, portanto,
em sua própria perspectiva de voo, solo ou dirigido pelo patriarca. Ao escolher
um timing para lá de esquisito para lançar seu petardo, pouco antes do jogo do
Brasil, ainda deu de lambuja para Lula um refresco ao maior constrangimento que
o petista enfrentou em semanas. A decisão arrastada de afastar Jaques Wagner da
liderança do governo no Senado depois das revelações complicadíssimas de suas
ligações com o ecossistema do Master viraram nota de rodapé diante do
bolsobarraco.
Por fim, um vídeo de 26 minutos em que o único assunto é a
guerra intestina dentro da família, com a vitimização característica capaz de
unir mesmo aqueles que não se toleram, apenas evidencia a completa e total
ausência de um projeto de país na candidatura de Flávio. Ela nasceu como e
segue como uma resposta de Jair a seu destino judicial.
A cada petardo que o atinge, sejam os milhões que pediu
docilmente a Daniel Vorcaro ou o puxão de orelhas público da madrastra, Flávio
perde estatura como postulante à Presidência. Resta evidente sua falta de
recursos políticos, estratégicos, intelectuais e emocionais para lidar com
adversidades.
Sua pré-candidatura vai ficando tão realista quanto os
embaraçosos vídeos de inteligência artificial com que resolveu inaugurar o
marketing de sua campanha. Não deixa de ser emblemático que, no dia em que
lançou mais uma dessas peças, em que aparece como piloto indo “resgatar” o
menino Neymar, um vídeo sem nenhum recurso de IA, feito na biblioteca da casa
do pai, o tenha reduzido ao papel do menino que precisa ser resgatado. De novo.

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