Governo entra na campanha com emprego alto, mas inflação
elevada
O governo fechou o primeiro semestre com uma notícia
animadora – desemprego menor do que o de um ano antes – e uma preocupante,
embora positiva – prévia da inflação mensal em queda, mas com taxa anual, 4,8%,
ainda acima do teto da meta. Se a produção continuar em alta, mesmo com a
expansão econômica perto de 2%, uma taxa medíocre para um país emergente, o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva poderá lucrar na busca pela reeleição.
Falta saber como o governo reagirá se a alta de preços continuar superando com
folga a meta oficial, 3% em 12 meses com tolerância de até 4,5%.
Se a inflação seguir corroendo o orçamento
familiar, distorcendo o gasto público e engordando a dívida federal, uma
resposta convencional poderá incluir um aperto nas finanças do governo. É
difícil, no entanto, apostar numa reação desse tipo, quando o presidente da
República está buscando mais uma reeleição.
Do lado oficial, a ação mais provável no rumo do ajuste
continua sendo cautela maior na política monetária, com o Banco Central (BC)
mantendo juros elevados e limitando, portanto, os empréstimos e o investimento
privado em obras, máquinas e equipamentos. O presidente da República poderá
fazer cara feia, mas tem procurado aceitar sem muita reclamação a prudência do
BC. No entanto, será uma surpresa se entrar de fato no jogo da austeridade,
especialmente quando está empenhado na caça aos votos.
O custo da austeridade poderá ser tanto maior para o
governo, politicamente, quanto pior for seu efeito no mercado de trabalho. A
desocupação no trimestre encerrado em maio ficou em 5,6%; foi ligeiramente
inferior ao do período de março a abril (5,8%) e bem menor do que o de um ano
antes, 6,2%. Além disso, foi o melhor resultado para esse período na série
iniciada em 2012.
A população desocupada, 6,1 milhões de pessoas, também foi
quase igual à do trimestre dezembro-fevereiro, 6,2 milhões, e 9,3% menor do que
a de um ano antes. A população ocupada, 102,7 milhões, aumentou 0,5% no
trimestre e 0,8% em um ano. O nível de ocupação, 58,6% das pessoas em idade de
trabalhar, aumentou 0,2 ponto porcentual no trimestre.
A relativa estabilidade em relação aos primeiros meses do
ano pode ser sazonal, mas a mínima histórica talvez indique uma tendência
estrutural de “aquecimento e expansão”, observou o analista William
Kratochwill, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Isso dependerá principalmente do ritmo da atividade
econômica, embora outros fatores, como alterações na legislação do trabalho,
também possam afetar o emprego no curto prazo. Quanto aos negócios, deverão
continuar avançando, mas algumas projeções indicam perda de ritmo. Segundo o
boletim Focus divulgado na segunda-feira passada, o Produto Interno Bruto (PIB)
deve crescer 1,98% em 2026 e 1,70% em 2027. O governo tem estimado um avanço em
torno de 2%, muito próximo da mediana estimada no setor financeiro. O PIB
aumentou 1,1% no primeiro trimestre e 2% em 12 meses. A produção da
agropecuária cresceu 7,5% no período de um ano, a da indústria expandiu-se 1,3%
e a dos serviços avançou 1,8%.
Não há, por enquanto, perspectiva de crescimento muito
diferente da média registrada nos últimos anos. O aumento da capacidade
produtiva depende do investimento de capital em recursos físicos, como
instrumentos produtivos, infraestrutura e outras construções. O capital humano
– mão de obra disponível e qualificada para as atividades necessárias – também
é fundamental e depende, naturalmente, das somas aplicadas em educação e
treinamento.
O valor investido em capital físico no trimestre inicial
deste ano equivaleu a 16,5% do PIB, segundo o IBGE. Ficou abaixo do registrado
um ano antes, 17,6%, e continuou muito inferior ao observado em outras
economias emergentes, frequentemente iguais e até superiores a 18%. Até em
alguns países desenvolvidos a taxa do investimento em relação ao PIB tem
superado a do Brasil, segundo estatísticas do Fundo Monetário
Internacional (FMI).
Juros altos dificultam e desestimulam o investimento privado
em meios de produção. Mesmo com o recente corte de 0,25 ponto porcentual, os
juros básicos, agora fixados em 14,25%, permanecem elevados e o Banco Central
terá dificuldade para decidir novos cortes enquanto houver muita insegurança
quanto a um ajuste sustentável das finanças públicas. Crédito mais barato
poderia ser um grande facilitador do crescimento da atividade e do emprego
produtivo. Mas crédito e investimento dependem, para crescer, do capital
disponível, de seu custo, das condições políticas e das perspectivas econômicas
de médio e, se possível, de longo prazo.
As condições políticas têm sido estáveis no País, e sem
risco aparente de retrocesso e de contaminação externa. A decisão de mobilizar
e aplicar capitais depende basicamente do custo do dinheiro e do cenário de
médio e, se possível, de longo prazo. O dinheiro continua caro, com juros
básicos de 14,25%, e taxa real – descontada a inflação prevista – acima dos
padrões internacionais e dependente de uma gestão mais prudente, e por enquanto
imprevista, das finanças do governo.

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