A estratégia de trabalhar com um mundo falsamente
compartilhado está na base das fake News.
Outro dia, em palestra da Academia Brasileira de Letras
(ABL), o filólogo acadêmico Ricardo Cavaliere dissertou sobre a filosofia da
linguagem que, no final do século XIX, na chamada “virada linguística”, definiu
que nosso saber não está restrito aos domínios da mente, “pois o conteúdo
cognitivo que acumulamos no decorrer da vida é moldado pela linguagem”. Os
estudos da filosofia da linguagem destacam dois tipos de linguagem, baseados na
“pressuposição” e na “implicatura”.
A primeira, parte do princípio de que os
interlocutores têm o mesmo conhecimento. Se na argumentação você usa um
pressuposto equivocado para defender uma tese, pode fazê-lo de má-fé, só para
ganhar a discussão, ou por ignorância. Se seu interlocutor conhece o assunto,
verá logo que você está errado. Mas, se, ao contrário, ele não tiver essa
informação, você pode ganhar uma discussão com base num equívoco, por má-fé ou
ignorância. Não pude evitar lembrar de discussões políticas em que o ardil
geralmente está presente.
O mais famoso deles é a disputa entre o General Dutra e o
Brigadeiro Eduardo Gomes pela presidência em 1954. O Brigadeiro, em um comício,
disse que não precisava dos votos “desta malta de desocupados que apoia o
ditador”. Segundo relato da historiadora Alzira Alves de Abreu, o getulista
Hugo Borghi descobriu no dicionário que “malta”, além de significar “bando ou
súcia”, o que já era ofensivo, também denominava trabalhadores que levavam suas
marmitas nas linhas férreas, o que atingia mais diretamente os eleitores
pobres. Daí a pressuposição de que o brigadeiro, um candidato da elite, estava
menosprezando os marmiteiros, os pobres, foi um passo, e o general Dutra venceu
uma eleição perdida.
Essa estratégia de trabalhar com um mundo falsamente
compartilhado está também na base das fake News. “Assim, o mundo em que vivo é
o mundo que a linguagem torna factível”, ressalta Cavaliere. Ao lado da noção
de pressuposição, vige no âmbito da filosofia da linguagem a noção de
implicatura, lembra o filólogo, “uma formulação linguística não dita, ou, mais
especificamente, dita pelo não dito”. A implicatura recorre a referentes que
devem estar na órbita dos dialogantes e, se não existirem no plano cognitivo do
outro, conduz a um drama discursivo que se denomina “mal-entendido”. Por isso a
filosofia da linguagem é uma das ciências mais estudadas, e utilizadas, no
mundo jurídico, onde cada vez mais as interpretações das leis são mais
importantes do que o texto legal em si.
A Operação Lava-Jato, por exemplo, vem sendo muito usada
atualmente pelos que estão sendo investigados no escândalo do Banco Master. O
senador Jaques Wagner disse que a foto dos dólares da Polícia Federal foi
“escandalosa”, e comparou-a a outras, da Lava Jato. A foto é escandalosa, não o
volume de dólares achado em sua casa. Defesa tão frágil passa pelo pressuposto
de que muita gente não sabe o que foi a maior operação de combate à corrupção
do país, e que foi aniquilada por decisão de ministros do STF, os mesmos que
agora querem acabar com as investigações do Master.
No debate entre os ministros do Supremo Gilmar Mendes e
André Mendonça no julgamento da prisão de Daniel Vorcaro, as acusações de má
conduta são recíprocas, mas a referência de um a outro magistrado não ocorre na
realidade factual, senão no plano da linguagem, já que nenhum dos dois se
refere diretamente ao outro. A referência se faz por implicaturas:
Gilmar: “Devemos combater a criminalidade, mas é preciso que
haja métodos constitucionais para fazer isto. É fundamental que haja”.
Implicatura: André Mendonça descumpriu a constituição para
manter Vorcaro preso.
André Mendonça: “O que eu não vou admitir é tentativa de
desacreditar a atuação seja minha, como relator, seja dos investigadores”.
Implicatura: Gilmar Mendes deseja taxar de inconstitucional
minha decisão pela prisão de Vorcaro.

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