O custo eleitoral difuso de ignorar a opinião pública
sobre a farra das emendas
Emendas seguem impopulares, mas alimentam uma engrenagem
política local sem custo eleitoral claro
Emendas Pix, de bancada, comissão ou mesmo as individuais
dos parlamentares: o orçamento secreto pode estar morto no nome, mas a farra da
destinação de dezenas de bilhões de reais com critérios obscuros pelo Congresso
Nacional continua. Nunca foi algo popular como ideia, ainda que se argumente
que quando o dinheiro chega na ponta, na forma de obras vistosas na base
eleitoral, ajuda a eleger deputados e prefeitos – perpetuando os mesmos grupos
de sempre no poder local e em Brasília. Uma pesquisa Genial/Quaest realizada no
ano passado mostrou que 82% dos entrevistados associavam as emendas
parlamentares à corrupção, duvidando que os recursos tivessem o destino
correto.
Trata-se de uma desconfiança que repete a
percepção que se tinha do orçamento secreto, criado em 2020 para salvar a
relação do então presidente Jair Bolsonaro com o Congresso.
O uso turbinado e distorcido das chamadas emendas de relator
sempre foi, corretamente, execrado pela opinião pública – tanto que ninguém
queria assumir sua paternidade.
Na campanha presidencial de 2022, Lula afirmou que o
orçamento secreto era pior que o
Mensalão, o grande escândalo do seu primeiro mandato. Mas
nenhum outro governo pagou tanto em emendas parlamentares, com suas versões
ocultas do orçamento secreto.
Recentemente, no limite do prazo permitido, Lula liberou o
valor recorde de quase R$ 34 bilhões em repasses definidos pelos congressistas.
A classe política, da situação à oposição, escolheu ignorar
a opinião da maioria dos brasileiros, que gostaria de ver o dinheiro dos seus
impostos sendo aplicado em políticas públicas de forma técnica, coordenada e
transparente. Quando figuras como os ex-deputados federais Eduardo Cunha e
Valdemar Costa Neto (este presidente do PL, partido do presidenciável Flávio
Bolsonaro) têm bens bloqueados pelo Supremo Tribunal Federal (STF), por
suspeita de influência indevida sobre a destinação de emendas parlamentares,
não se pode culpar quem reage com um misto de satisfação – porque a realidade
confirmou algo que já acreditava saber – e de justa indignação.
Mas quem paga o preço eleitoral dos escândalos com as
emendas? Ninguém, na verdade. O Palácio do Planalto vai dizer que é refém de um
sistema necessário para a governabilidade.
A oposição afirma que a Polícia Federal é seletiva nas
investigações. Para o Centrão, o importante é que as emendas alimentem uma
engrenagem de compra de alianças e apoios locais muito bem azeitada. Não há fim
à vista para a farra das emendas, pois o seu custo político é difuso. •

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