Candidatos devem ir além de seu escopo inicial,
tendo como objetivo conquistar o grande público, sob o risco de não decolarem
ou não ameaçarem o mais competitivo
Normalmente, a escolha de vice-presidentes numa disputa
eleitoral reveste-se de uma certa liturgia, principalmente por indicar a
segunda pessoa em importância na hierarquia republicana, alguém que, no
impedimento do presidente, vem a galgar o maior cargo nacional. Não se trata de
uma opção qualquer na medida em que, precisamente, indica para a continuidade
daqueles que mantêm o poder durante o mandato estipulado. Não é, neste sentido,
fruto do acaso.
Ademais, essa escolha obedece a critérios políticos, dentre
os quais: 1) representatividade partidária, ampliando a coligação eleitoral; 2)
potencial na captação de novos eleitores; 3) influência na arrecadação de
recursos; 4) não comprometimento com a corrupção; 5) vir de uma região ou
Estado que seja capaz de agregar maior votação; e 6) ser de uma religião ou de
sexo que faça a diferença na disputa, apontando para um determinado público.
Assinale-se que, na recente história
republicana três vicepresidentes assumiram o poder, sendo os casos de Itamar
Franco, vice de Fernando Collor de Mello, José Sarney, vice de Tancredo Neves,
e Michel Temer, vice de Dilma Rousseff. Todos tinham representatividade
parlamentar, nomes públicos reconhecidos, carreira pública, força eleitoral,
exímios articuladores, estando particularmente qualificados para o cargo.
Itamar Franco foi o patrono do Plano Real, que mudou a história do Brasil.
Foram excelentes presidentes em momentos de crise. O vice-presidente Marco
Maciel, por outro lado, é um exemplo de vice que, não tendo assumido, não
deixou de ser uma importante figura republicana.
Sob o prisma atual, porém, o quadro é constrangedor, com
exceção da candidatura do presidente Lula. O atual presidente, repetindo a
chapa anterior, escolhe um governador reconhecido, que fez toda a sua carreira
no PSDB e de confissão católica, adepto do Opus Dei, embora se apresente como
de “esquerda”, seja lá o que isso signifique nesse contexto. Sou tentado a
recorrer a Ortega y Gasset: “Ser da esquerda, assim como ser da direita, é uma
das infinitas maneiras que o homem pode escolher para ser um imbecil: na
verdade, ambas são uma forma de hemiplegia (paralisia parcial) moral”. Em todo
o caso, podese dizer que o presidente Lula e o PT fizeram o dever de casa, o
que não é o caso de seus oponentes. Conseguiram, neste sentido, olhar para fora
de sua bolha, visando aos eleitores em geral.
Flávio Bolsonaro, que se apresenta como o seu contendor mais
direto, está cada vez mais refém de suas próprias trapalhadas e das que não
sabe evitar. Seu comprometimento com Vorcaro, na arrecadação de recursos para
um filme, sua submissão à política americana quando seu irmão foi um dos
instigadores do tarifaço aos produtos brasileiros e, agora, o rompimento
público com sua madrasta, mostram uma candidatura atordoada. Esse último
rompimento, aliás, é de grande significação, visto que afasta de si o público feminino
e evangélico, vital para a sua vitória. E a escolha de vice cai dentro desse
redemoinho. Os nomes aventados, homem ou mulher, não apresentam nenhuma
representatividade, podendo ser mesmo desconhecidos para o grande público,
retirando-lhe qualquer relevância eleitoral e não lhe conferindo ampliação
partidária. Permanece dentro de sua própria bolha.
Ronaldo Caiado, apesar de ter escolhido um vice muito
reconhecido por suas habilidades de articulação, Gilberto Kassab, terminou por
fazer uma opção dentro de seu próprio partido, não dando um passo que deveria
ser decisivo para a ampliação eleitoral. As razões apresentadas, seja de
unificação partidária, seja de captação de recursos, não são de natureza a
mudar o quadro propriamente eleitoral, que deveria ser a sua maior preocupação.
Para uma candidatura que precisa avançar para se consolidar, preocupações como
unidade partidária e captação de recursos já deveriam ter sido equacionadas, na
procura de novos aliados.
Quadro semelhante expõe a candidatura de Renan Santos. Sem
fundo partidário e eleitoral, e até agora sem uma significativa captação de
recursos, carente de tempo de rádio e televisão, além de não ter nenhuma
coligação partidária atrás de si, a sua escolha de vice tampouco segue os
critérios adotados. A opção, também dele, de uma pessoa desconhecida do público
em geral, sem demérito de sua pessoa, não é de natureza a alavancar a sua
candidatura.
O mesmo se pode dizer da candidatura de Romeu Zema ao
cogitar escolher um empresário amigo seu, amplamente desconhecido e de seu
próprio Estado. Convém assinalar uma verdade básica: candidatos devem ir além
de seu escopo inicial, tendo como objetivo conquistar o grande público, sob o
risco de não decolarem ou não ameaçarem o candidato mais competitivo.
Note-se que não estou fazendo nenhum juízo de valor ou moral
sobre essas pessoas, mas tão somente assinalando as dificuldades apresentadas,
segundo uma liturgia de poder que deveria ser outra. E quem souber fazer essa
lição se posiciona à frente das pesquisas eleitorais. •

Nenhum comentário:
Postar um comentário