Polícia acabou informada não por seus espiões, mas por um
lavrador
O dia mal amanhecera em 12 de outubro de 1968, um sábado,
quando 150 policiais surgiram na mata a 25km do centro de Ibiúna, interior de
São Paulo. Caía uma chuva intermitente. A lama na estrada íngreme fizera a
tropa abandonar as viaturas no caminho principal. Percorreram 10km a pé. Quando
avistaram o acampamento, deram tiros para o alto aos gritos:
— Não reajam, vamos atirar para matar.
Cercaram as barracas de lona e prenderam 800 jovens. Era o
final melancólico do XXX Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE).
Ali se reuniam delegados de faculdades de
todo o país para eleger a nova diretoria da UNE e discutir teses e estratégias
para o movimento estudantil. Desde o golpe de 1964, era uma movimentação
vigiada e reprimida pelos militares. Com a classe política acuada por prisões e
cassações, e os sindicatos mais combativos sob intervenção, os universitários e
secundaristas se mostravam a vanguarda militante da oposição. O governo dos
generais proibiu as reuniões políticas e procurava assustar a população com a iminência
de uma hipotética tomada de poder pelos comunistas. Nada mais canastrão.
Buscava-se recuperar a democracia, extinta com a derrubada do presidente João
Goulart.
Jason Tércio reconstrói os embates com a polícia, até o
arrastão final, em “Sitiados – A saga do Congresso de Ibiúna em 1968”. Foram
vários confrontos, com prisões e manifestantes feridos — o mais grave, semanas
antes do encontro da UNE, ficou conhecido como Batalha da Rua Maria Antônia. A
briga ocorreu entre os alunos do Mackenzie, onde nascera a milícia do Comando
de Caça aos Comunistas (CCC), e da Faculdade de Filosofia da USP, à esquerda no
espectro político. O estudante José Carlos Guimarães, 20 anos, morreu baleado
na cabeça. Do Mackenzie também foram jogados frascos com ácido sulfúrico, que
atingiram vários universitários. Embora testemunhas afirmassem que o tiro
partira do telhado do Mackenzie, a polícia à época não identificou o autor. No
período democrático, um integrante do CCC e agente do Deops foi
responsabilizado pelo assassinato.
José Guimarães não era o primeiro aluno morto pela ditadura.
Em março daquele ano, um soldado matou à queima-roupa Edson Luís, 18 anos,
durante protesto estudantil pela melhoria da comida no Restaurante Calabouço,
no Rio. Ao assassinato seguiram-se protestos — peças teatrais foram suspensas
em solidariedade, e passeatas percorreram as ruas centrais da cidade. Na missa
de sétimo dia, a cavalaria da polícia cercou a Candelária e atacou a sabre quem
saía da cerimônia, numa guerra campal com bombas de gás lacrimogêneo. Na igreja
encontravam-se cerca de 600 pessoas.
O Congresso da UNE não deixava de ser um desafio à ditadura.
Os líderes estudantis — principalmente José Dirceu, Vladimir Palmeira e Luís
Travassos — eram vigiados pela polícia. As cenas lembravam filmes de James
Bond. Dirceu, depois de namorar uma militante, descobriu se tratar de espiã
(codinome: “Maçã Dourada”) colocada em sua cama pela repressão. Mesmo assim,
mantiveram a ideia de realizar o encontro para eleger a nova diretoria da
entidade. Ao contrário dos anteriores, seria maior — com 800 delegados de todo
o Brasil. Brincavam com a sorte.
Com o auxílio de um frei dominicano — Tito — e de Therezinha
Zerbini, casada com o general legalista Euryale Zerbini, os estudantes
conseguiram emprestado um sítio em Ibiúna. Apesar de a operação ser tratada em
sigilo, com uso de senhas e divulgação de locais e datas falsas, a polícia
acabou informada não por seus espiões, mas por um lavrador, Miguel Góes
(existem outras versões, várias inventadas pelos delegados). Góes desconfiou ao
ver pessoas armadas (eram estudantes) na propriedade e avisou o delegado. Informado,
o governador Abreu Sodré autorizou a batida policial. Até então, o presídio
Tiradentes jamais havia recebido tantos presos políticos de uma única vez. Logo
em dezembro de 1968, a ditadura baixou o AI-5, o mais duro golpe contra as
liberdades civis.
Perguntei a três personagens envolvidos na trama: por que o
Congresso caiu?
— Na sexta, soube que o Deops já sabia do encontro. Os
líderes foram avisados de madrugada. Preferiram esperar amanhecer para discutir
a informação — conta Paulo de Tarso Venceslau, economista.
— Foi ingenuidade colocar 800 pessoas naquele lugar — lembra
Fausto Nilo, poeta e arquiteto.
— Erro de planejamento da organização — diz Xico Chaves,
artista plástico.
Em setembro de 1969, José Dirceu, Luís Travassos e Vladimir
Palmeira seguiram para o exílio, trocados pelo embaixador americano Charles
Elbrick, sequestrado por guerrilheiros (o estudante Paulo de Tarso entre eles)
da Aliança Libertadora Nacional e do MR-8.

Nenhum comentário:
Postar um comentário