Delay na TV em alguns casos funciona como simulação do
dom da clarividência
Mas é um conhecimento do futuro do tipo trágico, que não
comporta alteração
A eliminação
precoce do Brasil na Copa me privará de um prazer que eu vinha
cultivando secretamente: assistir aos jogos da seleção com delay. Eu confesso,
sou um fã do delay.
Em ambientes urbanos densamente povoados nos quais uma maioria barulhenta tem
clara preferência por um dos times, o delay nos permite experimentar a sensação
de conhecer o futuro. Eu sabia com antecedência de dezenas de segundos quais os
ataques promissores do Brasil que se desenhavam na tela da TV que se
converteriam em gol e quais os que terminariam frustrados. Se o delay mata o
prazer da surpresa, ele também traz a tranquilidade de não sermos surpreendidos
por eventos que não controlamos.
Não se trata aqui daquela presciência
instrumental dos filmes de ficção
científica com a qual viajantes no tempo enriquecem fazendo apostas em
resultados esportivos que já conhecem ou comprando as ações que sabem que irão
se valorizar. É mais a clarividência trágica de Ésquilo. Prometeu, cujo nome em
grego significa justamente "aquele que aprende antes", sabia os
castigos cruéis a que seria submetido por desobedecer a Zeus e mesmo assim
entregou o fogo aos homens, escolhendo, por uma combinação de heroísmo com amor
à humanidade, submeter-se a 10 mil anos de sevícias. É só na continuação da
peça, texto do qual só restam fragmentos, que Prometeu daria uma espécie de
volta por cima.
E Ésquilo é literariamente menos sádico que Sófocles que faz
com que seus personagens tomem conhecimento do futuro por profecias, se
esforcem para alterar o destino e que seja justamente essa tentativa a causa de
sua perdição.
Tanto em Ésquilo como em Sófocles como na minha TV com
delay, saber o futuro é inútil. Estamos condenados ao papel de testemunhas do
destino. Não que a ignorância seja muito melhor. Epimeteu, o irmão menos
esperto de Prometeu, cujo nome significa "aquele que só aprende
depois", por imprudência, casou-se com Pandora e teve participação direta
na libertação de todos os males do mundo.
Ainda bem que só perdemos uma Copa.

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