Evangélicos veem ex-primeira-dama como vilã, vítima ou
força inquestionável
Sem o apoio de mulheres evangélicas, candidatura de
Flávio fica vulnerável
Quem venceu a guerra entre Michelle
Bolsonaro e os filhos de Jair? Por que ela se rebelou contra a
campanha de Flávio
Bolsonaro? Registrei algumas das narrativas —em que ela é vilã, vítima ou
liderança vencedora.
Evangélicas mais à esquerda entendem que Michelle colhe o
que plantou. Diante de tantos ataques, estaria sentindo na pele o que significa
ser recatada e do lar. O tratamento seria educativo para quem desfruta das
conquistas do feminismo enquanto defende a submissão da mulher no casamento.
Uma visão mais popular do que essa também a
trata como vilã, mas por outro motivo. Michelle seria a mulher sem juízo que
lava roupa suja em público e age por ser temperamental ou inapta. A atitude
estaria condenando o Brasil a mais quatro anos de PT.
Outra posição, também popular, a vê como vítima. Segundo
essa narrativa, analistas estariam atribuindo significados ocultos ao que é
apenas uma briga familiar. Os filhos de Jair atacaram a madrasta, que revidou.
Michelle aparece como alguém de personalidade difícil, mas
ainda exausta pelo que viveu desde a facada —pandemia, julgamento do marido,
internações, batalha para transferi-lo para casa, responsabilidade pela filha
adolescente.
Nessa condição de fragilidade, Michelle vem sendo atacada em
sua honra, apontada como ingênua e ameaçada de violência física. Teria feito
bem em se defender, mas não tem plano. Ao falar no evento com as mulheres
conservadoras, Flávio sugeriu que ela estaria sendo induzida a prejudicá-lo.
Há a imagem de Michelle como vitoriosa —uma mulher que se
parece com lideranças de igrejas pentecostais, como a pastora Helena Raquel,
que viralizou ao criticar o machismo que encobre a violência contra mulheres
nas igrejas.
Representam uma alternativa ao feminismo que, em vez de ver
a Bíblia como um livro que promove o machismo, percebe nas escrituras um
caminho para o igualitarismo. Homens e mulheres estão submetidos à mesma
moralidade e o homem é mais defensor do que cabeça da casa.
Michelle é vista como essas mulheres que se entregam a
projetos por suas igrejas mas são mantidas sob controle por lideranças
masculinas. Defendem a submissão, mas, na prática, dão exemplo de
empoderamento.
Na disputa com Flávio, seria uma liderança política que fez
por merecer seu espaço. Viajou, mobilizou igrejas, abriu diretórios do PL Mulher,
ampliou em quase 50% o número de mulheres eleitas pela legenda em 2024. Seria
atacada pela esquerda porque disputa o monopólio desse campo sobre as
necessidades de mulheres. E sai por cima.
Para alguns, ainda sonharia em ser a salvadora da direita
caso escândalos tirem Flávio do jogo. Outros a veem se blindando: teria
informação sobre novos materiais ligando Flávio ao caso Vorcaro, sai da linha
de fogo e guarda capital político para 2030, sem Lula.
Duas ideias sobressaem: sem o apoio de mulheres evangélicas,
a candidatura de Flávio fica vulnerável em uma eleição tão disputada. Se
acontecer, Michelle será apontada como culpada.

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