Resistência brasileira à moratória indefinida na taxação
do comércio eletrônico mostra que se Trump quiser negociar terá que colocar as
tarifas na mesa
A decisão de Donald Trump sobre a tarifa de 25% sobre as
exportações brasileiras depende menos das audiências públicas desta segunda e
terça no Escritório Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) do
que do bode que o governo brasileiro colocou no Salão Oval. O caprino entrou na
história durante a reunião de março da Organização Mundial do Comércio em
Yaoundé, capital de Camarões.
Nesta ocasião, o Brasil foi o único a fincar o pé contra a
renovação da moratória sobre transações do comércio eletrônico, vigente desde
1998. Muitos países são contrários a esta moratória, que amarra a possibilidade
de políticas regulatórias, especialmente com a expansão desenfreada da
inteligência artificial.
A pressão americana, porém, foi
avassaladora. O grupo de países menos desenvolvidos da África, Caribe e
Ásia-Pacífico (ACP) recuou. Entre as ameaças na mesa estão os planos de
investimento das big techs em datacenters, armazenadores de dados capazes de sugar
toda a energia que um Estado como Pernambuco produz.
A União Europeia também cedeu ao temor de confrontar a Casa
Branca por conta do peso dos EUA na Organização do Atlântico Norte (Otan), que
protege militarmente o continente da Rússia. Até a Turquia, único país a cerrar
fileiras com o Brasil até o fim da negociação, fraquejou.
O tema é central para as big techs porque é por meio da
taxação que governos podem democratizar o acesso às suas ferramentas e se
municiar de recursos para fomentar suas próprias tecnologias. O governo Trump
se empenhou para oferecer um seguro ao setor. Até se mobilizou para formar um
grupo de países que topavam a moratória indefinida, à revelia da OMC, que exige
consenso.
Menos de 30 dos 166 países da OMC aderiram. Entre os
desenvolvidos estão Japão, Noruega e Reino Unido. Entre os menos desenvolvidos
estão alguns daqueles que, em acordos bilaterais com os EUA, haviam se
comprometido com a moratória permanente, como Argentina, El Salvador e
Guatemala.
A ausência silente da União Europeia, China e Índia mostra
que esses países se escudaram no Brasil para resistir à moratória indefinida.
Negociadores brasileiros que estavam na reunião da OMC foram parabenizados por
embaixadores de países que não cerraram fileiras com o Brasil mas se mostraram
satisfeitos com o desfecho
Jamieson Greer, comandante do USTR, estava lá e se disse
“desapontado com a falta de seriedade” da OMC. O vice-presidente, JD Vance, que
ganhou a vaga na chapa por sua proximidade com as big techs, já tinha sido
prevenido sobre o que estava por vir e se pronunciou antes mesmo do encontro
que resultou na suspensão da moratória: “A América não pode e não vai aceitar
isso”.
Vance, contrariando a divisão de tarefas que tem deixado a
América Latina como território de seu rival na sucessão de Trump, o secretário
do Departamento de Estado, Marco Rubio, foi ativo na promoção do encontro entre
o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) menos de dois meses depois da reunião da
OMC.
Vem daí a combustão da química de Trump. A eleição de Flávio
Bolsonaro em outubro facilitaria a extensão da lógica que tem mantido a União
Europeia refém dos americanos. A maior guerra do seu quintal é aquela do crime
organizado. Na medida em que Trump consiga incorporar a joia da coroa, no arco
do narcoterrorismo, tomaria o continente por refém.
Um experiente negociador reconheceu o bode quando os EUA
ofereceram a redução da moratória para quatro anos e o Brasil fincou pé em dois
anos. Welber Barral, que foi árbitro da solução de controvérsias da OMC, diz
que o Brasil tem justificativas plausíveis, como a de que a regulamentação da
Inteligência Artificial e da reforma tributária estão em curso no Congresso e,
por isso, não tem como se comprometer com uma moratória.
Na avaliação de negociadores experientes na rinha
internacional, porém, a posição brasileira foi entendida assim: “Se os EUA
querem negociar terão que abrir mão de alguma coisa”. Esta alguma coisa é a
taxação de 25%. Eis o bode na sala. Nenhum outro país poderá cobrar do Brasil a
negociação unilateral se o largaram sozinho na frente de batalha.
Itamaraty e Ministério da Indústria e Comércio tratam como
confidenciais os seis pontos de negociação das reuniões bilaterais que têm tido
com Greer, mas um embaixador e um representante de empresas americanas no
Brasil reconhecem a centralidade do tema na negociação em curso.
E se os EUA enxotarem o bode da sala? A família Bolsonaro
terá que amargar o revés da confirmação da tarifa. Como legado, Flavio
Bolsonaro terá deixado um memorando com a retirada das taxas dos cartões de
crédito para melhor concorrerem com o Pix. E quem remuneraria as bandeiras
americanas? Na ausência de explicação, conclui-se que o Tesouro Nacional.
E Lula? O governo segue com sua posição, contando, como
deixou claro no memorando enviado pelo Itamaraty ao USTR, que os danos à
economia e aos consumidores americanos acabem por falar mais alto.
Sobre o impacto nas urnas, que falem os eleitores. Na rodada
semanal de pesquisas qualitativas do Democracia em Xeque, Beto Vasques e Esther
Solano colheram entre os que votaram em Bolsonaro em 2018 e em Lula em 2022 e
agora estão indefinidos, ruídos que mostram Flávio colocando seus interesses
acima daqueles do país.
“Acho que ele quis pedir o tarifaço para prejudicar o PT e o
país em consequência e aí vendo que caiu mal para ele, escreveu essa carta. Ele
viu que deu errado. Se Flávio ganhar e cair o tarifaço pode ser que resolva,
mas hoje é muito prejudicial (...) A gente fica com o pé atrás, né? Será que
ele só quer mesmo o bem dele e da família ou vai querer o bem do Brasil? É uma
briga de poder” (homem de 30 a 50 anos, ensino médio e renda entre três e sete
salários mínimos).

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