O processo de internacionalização da moeda chinesa
começou com a adoção da moeda para financiar e liquidar o comércio, antes de
seu uso ser estendido às transações financeiras
O jornal chinês China Daily publicou um artigo sobre as
relações financeiras e monetárias entre a China e o Brasil. Informa o jornal
que o Ministério da Fazenda do Brasil entregou sua carta de intenções para a
emissão de títulos Panda à Associação Nacional de Investidores Institucionais
do Mercado Financeiro (NAFMII), em cerimônia em Pequim, com a presença de
autoridades da China e do Brasil, para marcar a iniciativa.
Um título panda é um instrumento de dívida emitido em
renminbi por governos ou instituições estrangeiras no mercado de capitais
onshore da China.
O Brasil é o primeiro país latino-americano
a emitir títulos soberanos Panda. A medida atesta o crescente interesse de
emissores internacionais por títulos Panda, como canais de financiamento
diversificados e de menor custo, o que pode abrir caminho para uma participação
mais ampla de emissores no mercado de títulos da China.
“A China e o Brasil não são apenas parceiros bilaterais, são
partes interessadas em uma arquitetura financeira global mais equitativa”,
disse Dong Shaopeng, pesquisador sênior do Instituto Chongyang de Estudos
Financeiros da Universidade Renmin da China, ao Global Times na terça-feira.
“Seu peso econômico combinado, estruturas complementares e visão compartilhada
de cooperação Sul-Sul os tornam âncoras naturais de estabilidade para as nações
em desenvolvimento.”
Muitos indagam se o renminbi está prestes a ocupar um espaço
maior na economia internacional nas transações monetárias e financeiras. A
experiência histórica do século XX parece indicar que as transições entre
moedas de reserva têm sido lentas.
Foi longa a ultrapassagem da libra pelo dólar na posteridade
da Primeira Guerra Mundial. É de bom alvitre relembrar que a “disciplina”
imposta às economias no segundo pós-guerra nasceu da trágica experiência do
tumultuado período dos anos 1920 e 1930, encravado entre as duas guerras
mundiais.
Esse intervalo histórico foi marcado por instabilidades
monetárias e cambiais avassaladoras, pela transmissão de tensões por meio dos
circuitos financeiros internacionais, por disputas comerciais e por desemprego
em alta. Tudo isso culminou na Grande Depressão, iniciada em 1929, e na
violência do nazifascismo, que não foi outra coisa senão a vingança brutal da
política contra as peripécias dos mercados.
Barry Eichengreen assegura que “as lições para aqueles que
buscam preservar o status do dólar como moeda global são claras. Evitar a
instabilidade financeira, o que, no contexto atual, significa não permitir que
problemas na esfera das criptomoedas se propaguem para o restante do sistema
bancário e financeiro”.
Eichengreen sugere limitações no uso de tarifas, visto que o
amplo uso internacional do dólar decorre, em grande parte, das relações
comerciais dos Estados Unidos com o resto do mundo.
O Brasil é o primeiro país latino-americano a emitir
títulos soberanos Panda, um instrumento de dívida em renminbi
Assim, é imprescindível preservar as alianças geopolíticas
do país, “visto que são os parceiros de aliança dos Estados Unidos que têm
maior probabilidade de considerar os EUA um administrador confiável de seus
ativos estrangeiros e de deter sua moeda como demonstração de boa-fé. Os EUA,
ao que tudo indica, estão trilhando o caminho oposto, arriscando a estabilidade
financeira, impondo tarifas à toa e antagonizando seus parceiros de aliança. O
que foi conquistado ao longo de um longo período pode ser demolido num piscar
de olhos”.
A análise de Eichengreen sobre os riscos que afligem o dólar
como moeda-reserva é pertinente. No entanto, a expressão “demolido num piscar
de olhos” é um tanto ousada. A cultura política e econômica do Império do Meio,
amparada nas lições de Confúcio, adota a estratégia “devagar e sempre”. Vou
abusar da paciência do leitor do nosso Valor e sugerir a
leitura dos ensinamentos dos Analectos.
O Mestre disse: “Ao governar um reino com mil carruagens,
trate dos negócios com reverência e seja coerente com o que fala; evite gastos
excessivos e ame os seus semelhantes; empregue o trabalho do povo apenas nas
épocas certas”.
Tzu-ch’in perguntou a Tzu-kung: “Quando o Mestre chega em um
reino, ele invariavelmente fica sabendo sobre o governo do lugar. Ele busca
tais informações? Ou elas lhe são fornecidas? O Mestre conquista-as sendo
cordial, bom, respeitoso, moderado e deferente. O modo com que o Mestre busca
informação é, talvez, diferente do modo com que outros homens a buscam... Veja
os meios que um homem emprega, observe o caminho que ele toma e examine a
circunstância em que ele se sente confortável. Como poderia o verdadeiro
caráter de um homem esconder-se?”
A melhor forma de vida envolve servir à comunidade política,
pois aqueles que exercem o poder podem fazer o maior bem do mundo, assumindo
que o exercem de maneiras moralmente justificadas.
Inspirada em Confúcio, a trajetória chinesa evidencia a
importância da construção institucional para o avanço econômico. O
desenvolvimento das formas mercantis na China produziu uma Nova Revolução
Industrial, e permitiu a convergência à “modernidade”, ao revigorar
características culturais e institucionais milenares na criação de projetos de
desenvolvimento de poderosas estruturas industriais e financeiras.
As autoridades chinesas seguiram um padrão secular em que a
internacionalização da moeda começa com a adoção de uma moeda para financiar e
liquidar o comércio transfronteiriço de commodities e mercadorias, antes de seu
uso ser estendido às transações financeiras.
Programas subsequentes permitiram que empresas chinesas
selecionadas investissem fundos de renminbi em países estrangeiros e que
investidores estrangeiros adquirissem ativos denominados em renminbi na China.
O Programa Belt & Road, o projeto global de infraestrutura apresentado pelo
governo chinês em 2013, apoiou o investimento direto de empresas chinesas no
exterior. Países que recebiam renminbi como pagamento pelos investimentos
estrangeiros da China os usavam para comprar exportações chinesas. Enquanto os
projetos da Belt & Road assumiam a forma de investimentos em
infraestrutura, o renminbi era usado para adquirir os serviços de empresas
chinesas de construção.
Devagar e sempre.

Nenhum comentário:
Postar um comentário