Disputa de 2026 passa pela mulher que trabalha por conta
própria e ainda não foi conquistada por nenhum dos dois lados
Na coluna passada escrevi que o voto feminino em 2026 não
cabe numa personagem só. Há Dona Maria do Socorro, aposentada no sertão de
Pernambuco, que vota olhando para a rede pública que sustenta a casa. Há Vera,
em Suzano, cuidadora em tempo integral da mãe acamada, que carrega todo mundo
sem que ninguém pergunte quem cuida dela. E há Tatiana, de 33 anos, que faz
sobrancelha na garagem em Mauá, paga MEI, racha o aluguel com o marido
motorista de app, fecha as contas no susto e se ofende quando alguém trata ela
como coitada.
É pela porta da Tatiana que a crise entre
Michelle e Flávio Bolsonaro entra no jogo. Não porque briga familiar decida
voto de país. Política brasileira já tem novela demais. O ponto é outro.
Michelle não era só a mulher de Jair no palanque. Era uma das poucas vozes
capazes de suavizar a imagem de uma direita que, para muita eleitora, chega
sempre pela bronca, pela guerra e pela masculinidade em campanha permanente. O
Datafolha mostrou Lula vencendo Flávio entre as mulheres por 52% a 37% no
segundo turno. Outras pesquisas apontam na mesma direção. Flávio já largava
atrás. O vídeo de Michelle não criou o problema. Deu rosto a ele.
Falo agora de mais uma personagem. Sônia tem 47 anos, mora
em Praia Grande, é auxiliar de enfermagem no plantão da noite e coordena um
grupo de mulheres da igreja aos sábados. Entrou no PL Mulher ano passado.
Semana passada cancelou a reunião de julho. Não sabe o que dizer para as
mulheres que ela mesma convocou. Sônia é o pedaço menos comentado da crise. Sem
Michelle, Flávio não perde só eleitoras. Perde também as militantes que
conquistariam eleitoras. Campanha não é só televisão, marqueteiro e corte de vídeo.
É a mulher que puxa conversa depois do culto. É a cabeleireira que comenta
política enquanto faz escova. É a mãe do grupo da escola que segura a discussão
quando alguém pergunta se aquele candidato respeita mulher.
Michelle era a chave dessa corrente. Sem ela, a militante
bolsonarista continua existindo, mas entra na conversa com uma mala mais
pesada. Antes podia dizer, olha a Michelle, ela está com ele. Agora precisa
explicar por que Michelle se sentiu desrespeitada, por que gravou, por que
rompeu. Em política, quem começa explicando crise interna já perdeu. Tatiana
não está esperando aula de ideologia. Quer saber quem entende a vida dela.
Segurança sem virar pancadaria. Família sem mandar mulher calar.
Empreendedorismo sem fingir que pagar MEI é dormir tranquila. A resposta de
Flávio não pode se limitar a vice mulher, camiseta de pai de menina ou pacote
de propostas femininas. Ajuda, mas não substitui confiança. E confiança,
diferente de programa, não se contrata em dois meses. Vale o aviso para o
lulismo também. Quem trata os 52% entre mulheres como cofre lacrado vai errar
de novo. Tatiana não é lulista por natureza. Vota em Lula por comparação, por
receio, por memória. Não assinou fidelidade com ninguém. A crise com Michelle
machuca Flávio porque desmonta a engrenagem que corrigiria sua maior fraqueza.
O desafio não é chegar na eleitora. É chegar por uma voz em que ela confie. Em
2026 não bastará ter mulher no palanque. Vai precisar ter mulher na corrente de
confiança. O voto de Tatiana não nasce em gabinete de partido. Nasce na
conversa de quem fecha o mês no susto e procura alguém que entenda o tamanho do
corre dela.

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