Pleitos que renovam 2/3 do Senado costumam eleger mais
influencers e outsiders
Preferências ideológicas tendem a prevalecer apenas na
definição do primeiro nome
"De cabeça de juiz e fralda de neném, ninguém sabe o
que vem" é um ditado popular entre advogados para designar o elemento de
incerteza inerente a decisões judiciais. Poderíamos acrescentar um terceiro
item ao provérbio: urnas
em eleições de duas vagas
para o Senado.
Desde que a Constituição de 1946 reduziu os mandatos de
senadores de nove para oito anos e manteve o número de três representantes por
estado, alternamos pleitos em que o eleitor vota em dois candidatos e aqueles
em que escolhe apenas um nome. Pode parecer um mero detalhe, uma caprichosa
imposição da aritmética sobre o processo eleitoral, mas ele tem consequências
importantes não apenas sobre a estratégia dos partidos para forjar alianças e
definir candidaturas mas principalmente sobre a psicologia do eleitor.
Em pleitos que renovam 2/3
do Senado, como o deste ano, o eleitor tende a utilizar critérios
diferentes para a escolha do primeiro e do segundo candidatos. A primeira opção
costuma ser mais ideológica, em linha com o voto para presidente e/ou
governador. Cumprido o dever para com a tribo, o sujeito se sente livre para
fazer o que quiser do segundo escrutínio. O limite é a imaginação. Muita gente
opta simplesmente por não votar. A proporção ajustada de votos brancos e nulos
para o Senado sobe consideravelmente em pleitos de duas vagas.
Outros recorrem a atalhos cognitivos. Eleições plurinominais
(em que se escolhe mais de um candidato) são as que costumam consagrar influencers,
outsiders, porta-estandartes de bancadas temáticas e outros tipos exóticos.
Alguns cidadãos tentam balancear o próprio voto. Assim, se escolheram um
postulante muito radical para a primeira vaga, poderão tentar
"compensar" optando por um moderado para a segunda. Outros vão pelo
caminho de menor resistência, ficando com um candidato de baixa rejeição mesmo
que nem o conheçam. Em suma, é tanta gente votando de acordo com estratégias
tão diferentes que pode sair qualquer coisa, como ocorre com a cabeça do juiz
ou a bunda do bebê.

Nenhum comentário:
Postar um comentário