A mera consciência partidária dos eleitores bolsonaristas
de algum modo arrastou a esquerda para dentro de sua lógica bipolar de poder
No domingo dia 16, os partidos políticos começaram suas
campanhas eleitorais de 2026. Mais do que a eleição para a presidência, as
eleições para as duas casas do Congresso decidirão o destino político do país.
A direita há décadas optou por aumentar sua representação nas duas casas e
governar o Brasil indiretamente por meio do Legislativo, emparedando a
Presidência da República. O poder político foi desfigurado pela concepção de
que o Brasil tem um partido só, o de uma família.
A mera consciência partidária dos eleitores que a seguem de
algum modo arrastou a esquerda para dentro de sua lógica bipolar de poder. O
PT, em particular, caiu na armadilha. O que não deixou para a esquerda senão
fazer política fora dos marcos do que é propriamente democracia direta e
eleitoral.
Nessa lógica, não é estranho que os
evangélicos fundamentalistas estejam sendo aparelhados para declarar que o
Brasil cristão ou diferente ou indiferente quanto à crença, mas não evangélico,
não é o país deles, mas um país inimigo. Eles não votam pela representação
política, mas pela intervenção religiosa nas instituições políticas.
O aspecto mais importante da vitória da direita no
Legislativo e da vitória da esquerda no Executivo, em 2022, foi a libertação do
centro da relação de subserviência ao bolsonarismo. As eleições serão um teste
da hipótese.
A centro-direita chega a estas eleições de 2026 sem a
necessidade de perfilhar e assumir os débitos políticos de Bolsonaro e sua
família. Os do personalismo dos Bolsonaros e sua incompetência para lidar com
questões como a pandemia e várias outras questões pendentes da desordem e das
decisões erradas de seu governo (2019-2022).
Um indício nesse sentido foi a fala poderosa de Gilberto
Kassab, do PSD, candidato a vice-presidente, na chapa de Caiado, aos
empresários em São Paulo, incluídos os do agronegócio e seu poder na política
do interior, quando declarou que a chance de Bolsonaro nesta eleição é zero. E
que o centro está com Lula. Esclareça-se: com Lula para que derrote os
Bolsonaros.
Os Bolsonaros são produto de uma “fabricação” política, com
base sociologicamente imperfeita e incorreta naquilo que Erving Goffman
caracteriza como manipulação de impressões.
É possível definir alguém a partir de impressões sociais que
ela pode causar intencionalmente nos outros. Mas as impressões não existem a
partir de suposições gratuitas e fake news. Elas dependem de atributos de
personalidade de quem é objeto da intenção. Poderia haver, ainda, o outro lado
sociológico da questão Bolsonaro.
Max Weber explica que o carisma não se transfere de uma
pessoa a outra. Bolsonaro, aliás, não tem carisma. Tem popularidade manipulada,
o que torna mais complicada a transferência do atributo de pai para filho.
Na manifestação de Copacabana, foi montada toda uma
encenação em que imagens e falas do ex-presidente da República, agora em
cumprimento de longa pena e, portanto, legalmente impedido dessas
manifestações, atuou eleitoralmente em favor do filho. O candidato nessa
inauguração de campanha mostrou que depende significativamente de que o
eleitorado o considere cópia e expressão do pai. Não é improvável o efeito
bumerangue dessa operação.
Nesta campanha os Bolsonaros terão maior visibilidade. E,
portanto, também a terão seus erros e defeitos, com forte probabilidade que a
unificação das identidades no nome “Bolsonaro” unifique também os atributos
negativos dos membros da família. A campanha refabricará o chamado clã.
A que se deve acrescentar o agravamento decorrente de
atributos falsos e frágeis, como a manipulação bolsonarista da religião e a
superficialidade de suas demonstrações de fé. Um palavrão de baixíssimo calão,
gritado por uma vereadora bolsonarista, contra Lula, no ato de Copacabana, tem
nesses casos a função desconstrutiva da teatralidade precária do restante.
A manifestação do Rio foi diferente do aspecto não
amadorístico da manifestação do PT em São Bernardo do Campo. Lula não se
apresentou sozinho, mas acompanhado de candidatos a outras funções e de outros
partidos. Foi pluralista. Em um lugar histórico da luta dos brasileiros contra
a ditadura militar.
As esquerdas têm uma história de sofrimento pela pátria, de
luta pela liberdade e muito concreta por um país soberano e livre, por
benefícios sociais na área da saúde e da educação.
O PT e seu candidato têm uma história consolidada e
propriamente de luta pela democracia no Brasil. Tem uma história propriamente
política e brasileira. O que é bem diferente de ter suposta influência
extralegal sobre governante de potência estrangeira. O que se confirma nos atos
fiscais antipatrióticos contra o Brasil.
*José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da
Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da
Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador
Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra
as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros
livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).

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