Primeiro turno se aproxima sem que os principais
candidatos tenham detalhado o que farão em caso de vitória
A campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da
Silva (PT) conseguiu nos últimos dias estancar os problemas que vinham se
acumulando e, após semanas na defensiva, reequilibrou o jogo. Para aliados do
petista, o freio de arrumação precisa continuar. E deve ser ainda mais intenso,
se a direita repetir a arrancada final que costuma dar nas disputas
presidenciais e o senador Flávio Bolsonaro (PL) passar para o segundo turno na
dianteira.
Como dizem no mundo do futebol, Lula estava “encaixotado”
pelo adversário. Em outras palavras, estava bloqueado por uma marcação tática
que o impedia de trocar passes, avançar pelo campo e criar novas jogadas.
Flávio tinha maior posse de bola, dominando a pauta da campanha e neutralizando
as investidas do presidente.
Os estrategistas de Flávio sabiam que o plano do Palácio do
Planalto era insistir no discurso de que Lula recebeu do ex-presidente Jair
Bolsonaro um país destruído, com a máquina federal aos pedaços, e ao longo dos
últimos anos conseguiu restabelecer as políticas públicas que haviam sido
abandonadas. Com a casa arrumada, a reeleição então serviria como ponto de
virada para um país melhor, com mais qualidade de vida e poder de compra para a
população.
Flávio também sabia que Lula entraria em
campo para tentar consolidar sua imagem junto à torcida como uma “lenda
política”, pedindo ao eleitor que lhe reconduzisse à Presidência para fazer uma
despedida dos gramados em alto estilo. Lula escalou a bandeira da soberania
para a defesa, na expectativa de reviver os melhores momentos em que sua
popularidade subiu após a família Bolsonaro trabalhar pelo tarifaço imposto
pelos Estados Unidos contra o Brasil. No ataque, apostou no caso Master.
Mas Flávio acabou surpreendendo. Para neutralizar o tema da
defesa da soberania, misturou o assunto com o debate sobre segurança pública,
ao argumentar que “soberania” mesmo é o cidadão poder andar na rua sem medo das
facções criminosas que serão tratadas como grupos terroristas.
A campanha do senador subverteu o lema do “nós contra eles”
muitas vezes utilizado por petistas, com um discurso de que a vitória de Lula
representaria, no fundo, “uma derrota do Brasil”. Fugindo da marcação “homem a
homem” da comparação de biografias, valeu-se do barulho gerado nas arquibancada
pelas notícias das impressionantes jogadas do ex-banqueiro Daniel Vorcaro para
evitar dar maiores explicações sobre suas conexões com o dono do Banco Master e
o financiamento do filme produzido para homenagear seu pai.
Flávio invadiu a área adversária, dominando o discurso sobre
a inflação de alimentos e a queda do poder de compra da população devido ao
endividamento. Petistas lamentam até hoje o gol feito pela oposição com as
peças de propaganda realizadas nos supermercados, assim como a dificuldade de
Lula separar sua imagem da de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).
Presente em praticamente todas as eleições presidenciais desde a
redemocratização, Lula tornou-se a cara do sistema, na visão da população em geral.
Neste processo de reflexão sobre os rumos da partida,
aliados do petista passaram a falar com menos embaraço sobre o equívoco
estratégico de colocar a homenagem ao presidente no centro da campanha. Afinal,
apesar de ter vencido por estreitíssima margem de votos em 2022, dependendo de
uma frente ampla contra o bolsonarismo, Lula não aproveitou os últimos anos
para ampliar sua base eleitoral. A hora era de finalmente ir atrás dos votos
dos indecisos.
A campanha à reeleição parecia estar com baixa capacidade de
reação, até que o Palácio do Planalto decidiu acelerar o ritmo de jogo com
auxílio dos anabolizantes da máquina. Lula anunciou o reajuste do Bolsa
Família, ignorou o risco de prejudicar o ambiente de negócios ao criminalizar
as empresas legais de apostas que haviam investido no país e entrou de cabeça
numa controvérsia religiosa envolvendo Nossa Senhora Aparecida.
Como resultado, a aprovação do governo federal melhorou.
Lula recuperou a dianteira nas pesquisas, mas não a ponto de poder comemorar.
Segundo a mais recente pesquisa da Quaest, o presidente empata em 42% a 42% com
Flávio Bolsonaro no segundo turno.
Isso explica o movimento da oposição pelo voto útil, em uma
última tentativa de contra-ataque antes de o árbitro apitar. Também joga luz
sobre o que tem levado ambos os lados a partir de vez para uma conduta
antiesportiva, após uma campanha de baixíssimo debate propositivo.
O primeiro turno se aproxima sem que os principais
candidatos tenham detalhado o que farão em caso de vitória. Na economia, as
medidas de ajuste fiscal são conhecidas e necessárias, mas impopulares.
Bolsonaristas, que antes defendiam o amplo corte de gastos, hoje advogam em
público o equilíbrio das contas por meio da ampliação da arrecadação. Do lado
oposto, petistas têm evitado defender até mesmo as regras de um arcabouço
fiscal que, apesar de suas travas, ainda garantem uma expansão dos gastos acima
da inflação e não resolvem o problema da dívida pública.
Cerca de 158,7 milhões de brasileiros se aproximam do dia da
eleição sem ter clareza do que esperar do próximo governo. A única certeza,
pela conduta dos jogadores e pela fama do juiz, é que o ambiente institucional
tende a se degradar ainda mais até o dia da posse.
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