A poucos dias da eleição, a impressão de que ministros
estão à beira do pugilato encobre os fundamentos das decisões. Não há risco de
fraude eleitoral, mas há uma crise de confiança
Mitsuyo Maeda, o Conde Koma, nasceu no Japão em 1878 e fez da luta uma
profissão itinerante. Formado no judô de Jigoro Kano, percorreu países
demonstrando técnicas e enfrentando adversários de diferentes modalidades.
Chegou ao Brasil em 1914 e passou por Manaus em dezembro de 1915, com
apresentações no Teatro Polytheama. Seus desafios ajudavam a divulgar uma arte
marcial na qual técnica, equilíbrio e alavancas permitiam superar a força
bruta.
Foi em Belém que Maeda encontrou Carlos
Gracie, responsável por transmitir seus ensinamentos aos irmãos. Hélio, que
aprendeu sobretudo no ambiente familiar, tornou-se um dos principais
responsáveis pelo aperfeiçoamento e pela divulgação do estilo brasileiro, com
ênfase no combate no chão. Carlos organizou o ensino; Hélio projetou a eficácia
das técnicas nos desafios. Filhos, sobrinhos e discípulos ampliaram essa
escola. Décadas depois, Royce Gracie levou suas finalizações aos primeiros
torneios do UFC, enquanto academias espalhavam pelo mundo o jiu-jítsu
brasileiro.
Entre os praticantes mais ilustres do esporte está Luiz Fux.
Discípulo de Osvaldo Alves desde a juventude, o ministro do Supremo Tribunal
Federal recebeu em Manaus, em 2019, a faixa vermelha e branca, correspondente
ao oitavo grau. Uma graduação que resulta de mais de 50 anos de treinamento.
Fux cultiva a disciplina, o autocontrole e os valores transmitidos pelo
jiu-jítsu. Agora, porém, trocou o tatame por um octógono institucional:
tornou-se protagonista da guerra de liminares que atravessou o Supremo e alcançou
a Justiça Eleitoral.
A escalada começou com o Banco Master. A investigação
conduzida por André Mendonça, as mensagens atribuídas a Daniel Vorcaro e os
questionamentos envolvendo Alexandre de Moraes expuseram divisões internas que
o tribunal não conseguiu administrar nos colegiados. A abertura de informações
e a disputa sobre os limites das apurações converteram divergências processuais
em confrontos públicos entre os ministros. Desde então, cada novo processo
politicamente sensível passou a ser interpretado à luz desse conflito, mesmo
quando possui fundamentos e objeto próprios.
O desgaste avançou sobre o reajuste do Bolsa Família e os precatórios do setor
sucroalcooleiro. No primeiro caso, Mendonça rejeitou uma iniciativa no TSE por
razões processuais; depois, Gilmar Mendes reconheceu a validade do aumento no
Supremo. Nos precatórios, referências encontradas no material do Master a
pessoas próximas de Nunes Marques ampliaram a tensão. Esses episódios não
demonstram, por si, atuação coordenada de facções judiciais. Revelam,
entretanto, um ambiente no qual decisões alimentam suspeitas de movimentos
entre adversários.
Dimensão histórica
A crise desembocou diretamente na campanha na sexta-feira. Mendonça determinou,
no TSE, a retirada de publicações que atribuíam a Flávio Bolsonaro a intenção
de remover de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. No
domingo, Flávio Dino permitiu o restabelecimento de conteúdos, invocando a
liberdade de expressão. Na segunda-feira, Fux suspendeu os efeitos da decisão
do colega e restaurou a ordem eleitoral até a manifestação do plenário. Em
quatro dias, as plataformas receberam comandos sucessivos e contraditórios
sobre o mesmo assunto.
Fux aplicou uma espécie de contragolpe: evocou o rigor empregado pelo próprio
Supremo nos inquéritos sobre desinformação para questionar a liberação de uma
narrativa considerada falsa pelo TSE. O argumento expõe uma cobrança de
coerência. Mas o procedimento reproduz o problema que pretende conter: outra
decisão individual neutraliza a anterior, enquanto o colegiado aguarda para
estabelecer uma orientação comum.
Nunes Marques, presidente do TSE, levou sua reação a Edson
Fachin e advertiu para o risco de captura institucional da Corte Eleitoral. A
expressão mostra a profundidade da ruptura: o tribunal responsável pela votação
passou a reclamar da interferência do Supremo, de onde provêm três de seus
integrantes. O ativismo monocrático voltou como um bumerangue. A expansão do
poder individual, frequentemente justificada pela urgência de proteger a
democracia, abriu caminho para uma disputa sobre quem pode impor sua interpretação
aos demais.
A poucos dias da eleição, a impressão de que ministros estão
à beira do pugilato ameaça encobrir os fundamentos de suas decisões. Não há
risco de fraude eleitoral, mas há uma crise de confiança. Quando os árbitros
parecem disputar o resultado, oferecem aos derrotados argumentos para contestar
as regras e aos observadores internacionais motivos para duvidar da
estabilidade institucional brasileira. A Corte precisa recuperar sua autoridade
com decisões coletivas fundamentadas e critérios consistentes. A lição da arte
suave deveria servir a Fux e aos colegas: dominar a própria força é tão
importante quanto vencer um adversário. No octógono do Supremo, a legitimidade
das eleições não pode acabar imobilizada. Existe uma dimensão ética e histórica
que precisa ser considerada pela Corte neste momento.
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