Editorial O Globo
Contagem regressiva para definição sobre ajuste
Como a velocidade da evolução da crise política não atende
às necessidades terapêuticas da crise econômica, há a percepção de que as
respostas do governo e do Congresso para estabilizar a economia, e preparar a
retomada do crescimento, não chegarão a tempo. E o pior é que as medidas
anunciadas até agora não são as adequadas.
Como a vida não para à espera dos políticos e do Planalto,
na quinta-feira mais uma agência internacional, a Fitch, rebaixou a nota de
risco do Brasil, de BBB, para BBB-, deixando o país a apenas um passo da saída
do “grau de investimento”, selo de qualidade para os investidores.
Antes, a S&P, outra agência, maior que a Fitch, rebaixou
o país para o “nível especulativo” — investimento no Brasil passou a ser de
alto risco. Entre as justificativas, o envio ao Congresso pelo governo de uma
proposta de Orçamento para 2016 com déficit, algo inédito. Reconhecido o erro,
o Planalto se mobilizou para remeter ao Legislativo um conjunto de propostas
embaladas como de ajuste fiscal, em que se destaca a recriação da CPMF, imposto
renegado pelas distorções que provoca, e, por isso, com baixa probabilidade de
ser carimbado pelo Congresso.
O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, não se cansa de repetir
a meta de 0,7% de superávit primário para o ano que vem. E, com razão, alerta
que, sem reequilíbrio fiscal, não haverá crescimento.
Para a preocupação geral, mesmo que a CPMF viesse a ser
recriada, o nó fiscal continuaria atado. Por conveniência política, para não
afrontar aliados e o próprio partido, o PT, o Planalto não aborda a crise
fiscal em toda a sua dimensão.
Em artigo publicado na segunda-feira no GLOBO, o economista
Raul Velloso voltou a chamar a atenção para pontos essenciais da crise: de
2002, quando Lula ganhou o primeiro mandato, ao ano passado, fim do governo
Dilma I, as despesas primárias (sem considerar os juros) da União cresceram
344%: bem mais que a inflação de 108% do período e a expansão real do PIB, de
46%.
Se cortes pudessem ser feitos, a questão não seria tão
grave. Mas não podem: 75% do Orçamento são para pagar a pessoas —
aposentadorias, outros benefícios previdenciários, funcionalismo, bolsas e
demais programas ditos sociais. São recursos engessados por lei, ou razões
políticas, e indexados à inflação ou ao salário mínimo, cuja fórmula infla uma
parcela grande das despesas, mesmo numa profunda recessão como agora. Em
janeiro, por exemplo, o salário mínimo subirá cerca de 10%, com brutal reflexo
sobre bilhões em gastos. Calcula-se que apenas o novo mínimo inchará os gastos
em 0,2% do PIB, enquanto cai a arrecadação tributária. Do Orçamento, há ainda a
obrigatoriedade de 8% irem para a Saúde e 4%, para a Educação.
Não há possibilidade, portanto, de se obter algum superávit
substancial sem se alterar as regras de engessamento e de indexação dos gastos.
É preciso, ainda, lançar logo reformas como a da Previdência, para desanuviar o
horizonte da economia.
A fim de quebrar a rigidez na administração orçamentária,
existe a DRU (Desvinculação de Recursos da União), emenda constitucional que
precisa ser aprovada até o fim de dezembro. Desengessará 30% até dezembro de
2023. A DRU é um “jeitinho” criado ainda na Era FH para contornar esta
vinculação excessiva.
O tempo passa e muita coisa precisa ser feita até 31 de
dezembro, para vigorar logo no dia 1º de janeiro. Mas, devido à crise política,
o Congresso resiste até mesmo a renovar a DRU. Fazem sentido, então, o clima
tenso e o pessimismo de agências de avaliação de risco.
Para agravá-los, ainda há o discurso piromaníaco de Lula
contra o ajuste fiscal. A saída, para ele e seguidores lulopetistas, é retornar
à política anterior do “novo marco macroeconômico” — juros baixos e mais
gastos, sempre na base da “vontade política”. Mas o “novo marco” é a causa da
crise. Imagine-se o que acontecerá. O risco é o ajuste fiscal ser feito de
forma selvagem, à la grega, pelo mercado, por meio de uma hiperinflação,
acompanhada de profunda recessão, pior que a atual.
Via Blog do Noblat

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