O ex-deputado petista André Vargas era uma estrela em
ascensão na política e na vida pessoal até que veio a Operação Lava-Jato.
Policiais e procuradores descobriram que o parlamentar paranaense, ao mesmo
tempo em que galgava degraus em sua escalada no poder em Brasília, mantinha
negócios escusos com o doleiro Alberto Youssef, um dos operadores do petrolão.
Vargas voava nas asas de um jatinho de Youssef e, em contrapartida, usava sua
influência para cavar contratos públicos que rendiam dinheiro à quadrilha. Mas
isso ainda era só a ponta das atividades extras do parlamentar. Ele também
faturava comissões em troca de contratos que arrumava no governo para uma
agência de publicidade amiga. Vargas foi preso, teve o mandato cassado e já
recebeu do juiz Sergio Moro sua primeira condenação: catorze anos de prisão. O
que ele fazia com as propinas que recebia? Isso ainda está sob investigação,
mas ele mesmo forneceu uma pista.
O ex-deputado prestou na semana passada um depoimento ao
juiz Sergio Moro. Vargas é acusado de comprar uma casa em Londrina, cidade onde
construiu sua carreira, com dinheiro de propina, um negócio de 1 milhão de
reais. Indagado sobre a origem de 480 000 reais usados para completar a
transação, o ex-deputado foi rápido na resposta: disse, sem maiores
explicações, que era um dinheiro que ele vinha guardando havia anos, fruto de
economias pessoais. "Eu guardava para uma eventualidade", afirmou ao
juiz. A explicação provavelmente é verdadeira. O motivo do cuidado é que é
absolutamente falso.
Estudos já demonstraram que a quantidade de dinheiro vivo
que circula em uma economia está diretamente ligada aos níveis de corrupção do
país. No Brasil, onde quase 40% das transações são feitas em dinheiro, a
percepção de corrupção entre a população, medida pela Transparência
Internacional, fica em 43 pontos - em uma escala em que zero é o maior grau de
corrupção e 100 é a honestidade absoluta. Já em países nos quais há menos
"cash" na praça - nos Estados Unidos, as cédulas respondem por cerca
de 20% das transações, e em lugares como Reino Unido e Áustria, menos de 10% -,
a percepção de corrupção é muito mais fraca: fica acima dos 70 pontos. "Há
uma correlação direta entre corrupção e dinheiro vivo. Por que outra razão uma
pessoa faria transações altas com cédulas num país com sérios problemas de
segurança?", questiona o economista Gil Castello Branco, da ONG Contas
Abertas.
Da Veja

Nenhum comentário:
Postar um comentário