Bernardo Mello Franco, Folha de S.Paulo
BRASÍLIA - Às vésperas do julgamento final do impeachment, a
direção do PT rasgou a última bandeira de Dilma Rousseff: a realização de um
plebiscito para antecipar as eleições presidenciais de 2018.
A presidente afastada levou meses para encampar a ideia
levada por senadores amigos. Quando finalmente decidiu aceitá-la, foi sabotada
por seu próprio partido. A executiva petista rejeitou a proposta por ampla maioria : 14 votos a 2.
A decisão é um presente para os escudeiros de Michel Temer.
Na próxima segunda, quando Dilma enfrentar o plenário do Senado, eles poderão
fazer uma pergunta irrespondível: "Como a senhora vem cobrar nossa adesão
a uma ideia que nem o seu partido apoia?".
O plebiscito surgiu como uma ideia exótica e de difícil execução.
Depois que o processo de impeachment avançou, tornou-se uma proposta
extemporânea. Ainda assim, parecia manter amplo apoio popular. No mês passado,
62% dos entrevistados pelo Datafolha defenderam a realização de novas eleições
presidenciais.
A pesquisa mostrou um quadro de insatisfação geral com a
chapa eleita em 2014. Por um lado, apenas 32% dos eleitores eram favoráveis à volta de Dilma. Por outro, só 14% aprovavam o governo Temer.
Se a promessa do plebiscito não seria mais capaz de salvar o
mandato de Dilma, ao menos permitiria a ela se despedir com um discurso de
apelo popular. Isso explica por que os políticos que ainda frequentam o Palácio
da Alvorada ficaram tão irritados com o desdém do PT.
O partido avalia que antecipar a eleição seria um tiro no
pé. O petismo só teria chances de voltar ao poder em 2018, e na hipótese de o
governo Temer se desmanchar até lá. Neste cenário, Lula poderia ser candidato
com a promessa de retorno aos tempos de bonança. O problema deste raciocínio é
que o futuro do ex-presidente depende cada vez menos dele, e cada vez mais da
Lava Jato.

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